O ANDARILHO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cao Guimarães
Elenco: Documentário
Duração: 80 min.
Estréia: 19/09/2008
Ano: 2007


Cinema de imagens


Autor: Fernando Watanabe

Cão Guimarães e um certo grupo de cineastas de Belo Horizonte (principalmente a Teia Produções) vêm realizando um trabalho diferenciado dentro do panorama atual do cinema brasileiro, tanto em termos estéticos quanto em dinâmica de produção. Mas, principalmente, o que diferencia este conjunto de filmes – conjunto sim, pois lá há um grupo – é a forma de aproximação com o cinema que, mesmo sem conhecermos de perto como funciona de fato tal dinâmica de trabalho, claramente se manifesta nos resultados que vemos na tela.

E Andarilho segue a linha estética que já pudemos conferir em outros filmes, sejam eles do próprio Cão, ou de outros cineastas como Lucas Bambozzi (“O Fim do sem Fim”) ou Helvécio Marins (“Trecho”). Cinema de imagens, por mais redundante que isso possa parecer. Melhor seria dizer que é um cinema que tem seu espírito criador materializado fundamentalmente nas imagens, e muito pouco ancorado em expedientes dramatúrgicos de enredo e de informações. Importa mais o esculpir a luz, a composição das formas, sem que isso se torne apenas estética vazia. As imagens emanam poder sensorial, e melhor, tais sensações estão em sintonia com a idéia de se estar à beira da estrada e com o encontro que se dá entre o filme e as pessoas mostradas no filme (os andarilhos).

A palavra, sim, ela está presente. Mas importa menos o conteúdo do que é dito do que a performance de quem fala. Nesse sentido pode-se ver um eco do que Eduardo Coutinho também preza muito em seus filmes, esse jogo cênico de expressão pelo verbal-corporal. O personagem de Andarilho fala com dicção estranha e atabalhoada, tornando certos trecho quase incompreensíveis. De todo modo, a compreensão intelectual não é o efeito buscado pelo filme, que surfa mais na chave de tecer uma experiência artesanal de imagens e sons que muitas vezes valem por si só. Estamos próximos de uma noção de arte pela arte, ou, do cinema pelo próprio cinema.

Assim, não há quase nenhum plano onde não se busque a originalidade, seja ela na forma de enquadrar, na textura da imagem, na duração dos planos ou na dinâmica interna dos mesmos. Perseguindo a todo custo esse “nunca antes visto”, o filme afirma a imagem como espanto. Como assombro. A imagem como luz e forma, como duração e movimento. E isso é tudo.

Claro que há um tema ali sendo esboçado, ensaiado. É o homem andarilho, misto de louco e de gênio, que vaga sem rumo pelas estradas. De sua metralhadora verbal pode-se deduzir que, se em algumas vezes ele está falando de Deus com um tom meio profético que namora a metafísica, em outros ele demonstra assombro diante da possibilidade de uma simples garrafa pet de refrigerante existir. Ainda, ele fala de formigas com a mesma consideração com que fala de homens. Como é possível que estejamos nesse mundo?

O plano final, que em um quadro bem aberto mostra uma estrada asfaltada e ao lado uma estrada de terra, parece condensar toda uma indagação diante do mundo. Não só esse plano, mas também outros, principalmente no início, onde a imobilidade das plantas é mostrada em contraste com a alta velocidade dos carros que passam pela estrada. O concreto e as máquinas não são nada. Tudo volta à Terra e à Natureza, é ela que sempre esteve aqui, à espreita, testemunhando homens que passam abismados por não saberem o por quê de estarem no mundo.
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