CANA QUENTE:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Luis Alberto Zakir
Elenco: Edmilson Nascimento, Hugo Casarini, Elisa Americano Saintive, Osmar Malavazi, Maria Helena Serrano, Wagner Molina, Dionísio Neto, Raquel Marinho e L.Stein.
Duração: 80 min.
Estréia: 19/09/2008
Ano: 2008


Pluralidade de tentativas e um resultado absolutamente singular


Autor: Cid Nader

Vou falar um pouco de Cana Quente, mas tentando me ater a uma análise que não se aprofunde em questionamentos ou elogios. Explico: quando digo que não me aprofundarei na análise do filme é porque sinto-me um tanto tolhido ou acanhado, por ter acompanhado - e até, de certa forma, interferido - muito de perto o processo de edição do filme; o diretor, o Luiz Zakir, de maneira bastante sincera "abriu" seu trabalho, após a primeira edição, para amigos próximos com a intenção de palpites que pudessem definir as melhores opções. Participamos e palpitamos, principalmente, nos primeiros momentos da obra já pós-configurada, indicando inclusive o Fábio Yamaji aqui do site, como o montador ideal. Mais à frente, mais um outro amigo - também colaborador esporádico do Cinequanon -, Daniel Turini, foi cooptado para a edição do som, e a partir daí creio ficar evidente que, mesmo jurando imparcialidade, análises mais aprofundadas poderiam gerar "desconfiança" de algumas partes.

Este primeiro filme de Luiz Zakir foi confeccionado como desejo pessoal de incursão no mundo da realização cinematográfica (grana própria, atores - em sua quase totalidade amigos dele mesmo - amadores, falta de qualquer tipo de bagagem anterior atrás das câmeras), partindo de alguém que nos últimos anos trabalhou muito próximo do mundo do cinema. Zakir foi gerente do Cinesesc de São Paulo, e com isso adquiriu aquele famoso e meio fanático gosto pelos filmes, algo muito próprio dos cinéfilos. Cinéfilo é uma raça que venera o cinema acima de tudo e, quase sempre, nutre lá no fundinho da alma a vontade de dirigir um trabalho - ao menos um. Ele resolveu ultrapassar a simples vontade e invadiu o mundo da confecção meio que com a cara e a coragem. Colocou dinheiro da poupança, locou uma pousada no interior de São Paulo, arrebanhou uma trupe de amigos dispostos a participar da empreitada e "muquifou-se" para um mês de filmagens. A aposta veio logo de cara com um longa-metragem.

O resultado inicial constatado foi o de um amontoado de imagens interessantes, um roteiro simples e ao mesmo tempo esperto (esperto na intenção inicial, que não obrigava a necessidade de elucidação de um crime, por exemplo, o que servia como mais uma característica de que a idéia da não dramatização como mote principal era um achado interessante, e corroborava com as imagens de teor quase antropológico que revelavam um tantinho da cultura caipira paulista), e atuações bastante amadoras em meio a umas duas ou três bem boas (e aí, desde sempre, jamais imaginei um entrave à vida do trabalho, já que desde sempre se notou que esse era fruto de um desejo extremo, que se amparou na opção de ser obra nascida de ação entre amigos). Era obra singular pela opção forte em se mostrar como reveladora de situações e lugares, de trama e cultura local, e o "empecilho" das atuações passou a ser algo fácil de ser contornado.

Edição, no cinema, chega ser quase que o sopro divino que dá vida e alma à matéria. E o filme passou a ser bastante trabalhado na "mesa de montagem" (computador, vá lá). Algumas dublagens foram impostas a situações onde a captação original do som esteve comprometida, alguns trechos que "pareciam" exagerados pelo modelo de atuação (e cito que o mais incomodado com alguns momentos era o próprio diretor, numa reação absolutamente compreensível - pela proximidade -, mas que por vezes careceu de um tanto de jogo de cintura para sua compreensão em meio à proposta inicial de distanciamento do "profissionalismo" e da caretice da obra higienizada - coisa mais facilmente conseguida por quem observa à distância) foram suprimidos, e os belos instantes de imagens (aliás, vale lembrar que do meio das intenções de "gente comum" no trabalho surge a figura do grande fotógrafo Aloysio Raulino) e de "antropologia" ganharam força.

Alguns "cortes" depois e uma nova obra observada na tela revelava um resultado bastante interessante. Talvez o próprio Zakir não tenha percebido de modo consciente a potencialidade do filme de imagens e "momentos abertos" que tinha à mão. Percebeu com certeza que havia conseguido "momentos comuns" bastante significativos (a conversa na mesa do bar - onde ele próprio dá uma "canchinha" -, o humor de algumas situações, a bela conversa do capataz que constrói gaiolas, a indecisão, ante a vida, do delegado...), mas não sabia como utilizá-los na proposta de um filme a ser compreendido pelo público. O filme escapava da armadilha de ter de "dar satisfações" a quem não compreendesse tentativas surgidas de intenções absolutamente cinéfilas. Sim, porque o que resultou é um filme cinéfilo (de e para), com algumas referências óbvias a quem queira percebê-las (perguntem a ele próprio e ele contará feliz em quem se baseou em determinados trechos), com a não linearidade do modo careta, e principalmente com os tais momentos abertos. Num último corte que vi notei uma situação nova criada em tempos mais recentes - foi filmado um novo final, com dois novos personagens, e com a elucidação do crime. O que resultou foi uma "atitude mais dramatúrgica" - a necessidade do filme ficção, do drama, da história, parecia ser um outro fantasma a atormentar o diretor, que só se sentiu feliz após "sepultá-lo". Num primeiro instante, para quem conhecia o trabalho e seus caminhos, pareceu solução onde não seria necessário - fantasmas que nos atormentam têm que ser exorcizados e, provavelmente, esse ainda o atormentava. Agora, percebo, a "solução" acabou por criar uma via a mais de tráfego para a película: talvez até deixado-o mais "completo", menos truncado, e ainda bastante cinéfilo.

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