O CORONEL E O LOBISOMEM:


Fonte: [+] [-]
Original: idem
País: Brasil
Direção: Maurício Farias
Elenco: Diogo Vilela, Selton Mello, Ana Paula Arósio, Pedro Paulo Rangel, Tonico Pereira, Andréa Beltrão, Othon Bastos, Marco Ricca, Lúcio Mauro Filho, Francisco Milani.
Duração: 106
Estréia: 07/10/2005
Ano: 2005


"O Coronel e o Lobisomem" - macaquinhos no sotão.


Autor: Cid Nader

Nos últimos 10 anos, nove entre os dez maiores sucessos de público no cinema brasileiro tiveram, como uma das co-produtoras de tal façanha, a Globo Filmes - é a TV Globo investindo no cinema nacional. Quais as conclusões a serem tiradas de tal estatística? Parece que o público de cinema usa, e muito, o veículo televisão na hora de escolher o produto a ser consumido - usa-se a telinha como orientação do que ver na telona. O apelo, charme, encanto dos atores de novela - reconhecida e ancestralmente nosso melhor produto artístico de exportação - fazem da Globo a nossa Hollywood.

O público acaba por ver submetida à qualidade da estética cinematográfica - com seu consentimento - ao estilo de filmagem novelesco. Estilo mais pobre, com restrição natural de espaço físico a ser utilizado e excessivos campo e contra-campo - vícios que acabam carregados quando ocorre a mudança de veículo.

”Cidade de Deus” e “Carandiru” - pelo bem e pelo mal - são exceção entre os nove, a saber: “Lisbela e o Prisioneiro”, “Cazuza”, “Olga”, “Os Normais”, “Xuxa e os Duendes I e II” e “Maria - Mãe do Filho de Deus”.

Agora, a Globo Filmes, a Fox do Brasil e outros, trazem mais uma promessa de sucesso de público: “O Coronel e o Lobisomem,” dirigido por Maurício Farias, baseado em livro homônimo de José Cândido de Carvalho.

Um produto com a cara de Guel Arraes - que nesse filme é um dos roteiristas -, pela semelhança "física" com “Lisbela e o Prisioneiro” e o anterior, “Auto da Compadecida”. Semelhança física, filme irmão, o que não significa dizer que sejam do mesmo calibre.

“O Coronel e o Lobisomem” trata de uma espécie de duelo jurídico, pela posse da Fazenda Sobradinho, entre o coronel de patente Azeredo Furtado (Diogo Vilela) e Pernambuco Nogueira (Selton Mello). É lógico que o filme não tem nada de obra de tribunal, com longas divagações e explanações.

Começa num, mas transfere-se rapidamente para o campo, com a disputa amorosa pela bela Esmeraldina (Ana Paula Arósio) - além da disputa pelas terras -, histórias de matutos e de um lobisomem, que por tempos assombra a todos, ao comer bichos da fazenda, passando posteriormente a assombrar a alma do coronel Azeredo Furtado.

O filme tem um grande mérito, que é o de respeitar o linguajar original utilizado na obra literária, com seu português por momentos quase ininteligível proferido por todos os personagens, com destaque para o impagável seu Juquinha, vivido pelo excelente e caricato Pedro Paulo Rangel.

Começa mal, com Diogo Vilela e seu eterno olhar de boneco de madeira a nos prometer um personagem estereotipado, que vai sendo domado pela montagem acabando por entrar nos eixos - ou seria o costume de vê-lo em cena, que com o tempo faz com que, já apaziguados, o aceitemos de mais natural?

Selton Mello "super-interpreta" o tempo todo, num "volume"bastante acima do desejado, e joga fora a oportunidade. A linda e maravilhosa Ana Paula Arósio também não encontra o tom certo, e compõe, com seu sorriso, um personagem "chupado" de suas experiências televisas.

Como dizia anteriormente, o filme começa mal, meio trôpego e indeciso pelo excesso de possibilidades oferecidas pela obra, mas passa a fluir, com o passar do tempo, de maneira mais natural. Passa fácil por bom período - longe de qualquer genialidade -, e se perde novamente ante a "obrigatoriedade" de mostrar serviço, com os alardeados efeitos especiais - assunto principal, mesmo negando - da boca pra fora – a importância, a produtora, Paula Lavigne, em entrevista coletiva.

Há a transformação de um dos personagens em lobisomem, no melhor - ou pior - estilo hollywoodiano; uma onça que dá o ar da graça por algumas vezes, de maneira absolutamente artificial, e uma cena de sereia - Iara - com Ana Paula, que nos remete, na marra, ao mundo de Xuxa Meneguel, pela entonação no falar, e pelo conteúdo do discurso proferido.

A música, Caetano Veloso e Milton Nascimento, não parece feita sob encomenda. Parece que tirada de um álbum, com músicas pré-concebidas, para qualquer tipo de filme; brasileiro ou latino-americano. Não encanta, e não tem harmonia com a obra.

Leia também: