ILUMINADOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cristina Leal
Elenco: Documentário
Duração: 100 min.
Estréia: 12/09/2008
Ano: 2008


"Iluminados" perde luz com o passar dos dias


Autor: Cid Nader

Antes de qualquer coisa: se eu fosse fotógrafo, elegeria esse trabalho de Cristina Leal como a obra de minha vida. Raramente vemos um filme que fale tão diretamente a uma categoria específica com o intuito do elogio e da busca de técnicas individuais sobre o exercício do ofício. As idéias que a diretora imprimiu ao seu documentário - que foi feito para falar da vida dos fotógrafos de cinema - foram geradas com a clara intenção de manter um diálogo no mesmo patamar de linguagem que os profissionais da área costumam usar em seu cotidiano. Isto é: ela "falou" deles - e para eles - construindo um filme com as ferramentas que utilizam em seu dia-a-dia; seu documentário tem como chaves técnica principal a utilização das imagens, dos efeitos, das luzes, para se contar.

Ela até utiliza os depoimentos de alguns dos profissionais mais respeitados da área no Brasil - e eles até demonstram que são bons e fluentes na utilização da oratória. Nesse momento do filme as exposições ganham um tom mais intimista. Suas explicações - cada um fala do seu modo de filmar - não ficam atidas somente às revelações sobre o modo como executam suas profissões, e a diretora mostra-se sensível ao colocar na edição depoimentos que falam do passado, do início, das ligações familiares e das influências que os remeteram a tal e específica profissão. Ainda dentro do quesito "palavras", o trabalho permite (provavelmente cobra, questão de pauta) então que cada um relate seu modo de trabalho: falam de suas preferências por espaços, por iluminação, por material e tipo de câmeras; falam também da maneira de trato com os diretores e, nesse momento, percebe-se quem é mais "arrogante" (dono de seu nariz ponto de interferir fortemente na obra), quem é mais técnico, quem trabalha mais com a intuição. Esses fatos narrados perfazem uma das divisões evidentes em um trabalho todo imaginado por "decupagem".

Na parte de imagens - o que deveria constituir a parte mais forte do trabalho, que é bastante pensado para os profissionais, também, além do público leigo -, o filme se resolve a contento e com qualidade. Imagens de filmes famosos que cada um fotografou vão emoldurando cada depoimento e a questão imagética da proposta do documentário acaba por fazer com que sua narrativa se concretize de maneira mais completa e complexa. Questão imagética que tinha como grande trunfo imaginado uma demonstração concreta do estilo de cada um dos que foram entrevistados: a diretora bolou uma cena de filme - mesmos atores, mesma música, mesmo texto e mesmo cenário - e pediu que cada um a filmasse a seu modo. Ela conseguiu assinaturas individuais, permitindo as mesmas possibilidades e condições de trabalho – poderia até dizer que fiquei em dúvida quanto à validade disso como um fruto sincero e aceitável para avaliações de estilos, mas a curiosidade que resultou e incitou tal idéia me superou a possibilidade de imaginá-la sob um viés crítico; apesar das dúvidas, achei-a divertida.

Dib Lutfi, Edgar Moura, Fernando Duarte, Mario Carneiro, Pedro Farkas e Walter Carvalho, foram os fotógrafos escolhidos para representar a classe. Só como curiosidade, cito que, em minha opinião, a execução de Mario Carneiro foi a mais feliz, bastante coerente com seu discurso oral. Há explicações e opiniões que podem assustar ou angariar os espectadores e isso é parte viva do projeto. Mas creio que meus comentários sobre elas desvirtuariam a análise do trabalho, em si, pois implicariam manifestações pessoais sobre parte de um todo (que é o que mais me interessa). E só para deixar uma impressão mais concreta sobre Iluminados: os diálogos, depoimentos, a parte falada, um tanto surpreendentemente são a parte mais forte e importante quando jogamos "os nove fora": num filme que trabalha com construtores de imagens (não de textos) e que baseia seu maior chamariz na "brincadeira" que faz com eles em busca de suas assinaturas imagéticas.

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