VLADO - 30 ANOS DEPOIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: João Batista de Andrade
Elenco: Documentário
Duração: 85
Estréia: 30/09/2005
Ano: 2005


"Vlado - Trinta Anos Depois" - lamentos por um inocente


Autor: Cid Nader

"Se estivesse vivo talvez fosse, hoje em dia, um homem do cinema". Com esse depoimento, Miguel Urbano define, em apenas uma frase, o perfil de Vladimir Herzog, jornalista, diretor de jornalismo da TV Cultura, assassinado no DOI-CODI de São Paulo, em 1975.

Assassinato que causou grande comoção nacional à época, e que chegou aos ouvidos da nação por ter acontecido já num período de abertura política, num momento de maior dificuldade para o acobertamento das barbáries normalmente cometidas em período de exceção. Na impossibilidade da ocultação do fato, os militares tentaram plantar a mentira do suicídio por enforcamento com cinto, ao ser "descoberto agente da KGB". O documentário se incumbe de mostrar, sem muito esforço necessário, o quão fácil foi desmontar tamanha farsa.

Cá comigo, sempre achei que documentários criativos na concepção, levam vantagem sobre os tradicionais, por imprimirem mais possibilidades narrativas e maiores recursos para segurar a atenção do espectador - diversamente das obras ficcionais que não exigem, normalmente, maiores conhecimentos para sua compreensão.

João Batista de Andrade veio demonstrar que os fatos podem falar por si só, sem pirotecnias, com esse seu novo trabalho - o melhor, após seu retorno ao cinema, depois de uma espécie de auto-exílio pelas bandas de Goiás, desiludido com a política cultural de Fernando Collor de Melo e a extinção da Embrafilmes.

É um documentário que transcorre da maneira mais natural possível, com depoimentos fortes, sinceros e emocionados, recitados frente às suas lentes, por rostos com marcas do tempo e traços amadurecidos, captados de maneira muito próxima, quase invasiva, como que a querer tirar palavras do mais profundo íntimo dos entrevistados.

Tal feito foi possível graças à intimidade de João Batista com seus entrevistados. Pessoas que fazem parte de sua vida há cerca de 40 anos, colegas de profissão, amigos no dia-a-dia e de martírio nos momentos de tensão política, quando aprisionados e torturados por pertencerem ao PCB - partido que não trafegava nas profundezas da ilegalidade e nem tinha propostas de solução ou mudança através da luta armada.

Ver Paulo Markun contar, com um olhar que indaga porquês, das torturas sofridas, encapuzado, e não resistir ao ver a mulher, Diléia Frate, na cela ao lado, também torturada - ela que não era sequer filiada ao partido - acabando por, humanamente, dizer que contaria tudo o que fosse necessário.

Ver Rodolfo Konder mudando, ao discorrer sobre sua tragédia, com feição inconformada, que toma aos poucos um ar reivindicatório de justiça, e racionalmente comentar que o objetivo da tortura não era o de machucar para extrair informações - que em 1975 ou eram desnecessárias ou já de pleno conhecimento do exército. Era, sim, o de quebrar a dignidade.

Passam muitos frente às câmeras: Ruy Ohtake, Luís Weis, Mino Carta, Fernando Morais, D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel, a mulher de Herzog, Clarice, e outros, muitos outros. Passam e lamentam Herzog e seu destino, pois por serem íntimos do jornalista, sabiam ser ele o "mais inocente" de todos, o mais ligado às artes ao cinema - escreveu o roteiro de Doramundo, dirigido por João Batista.

Vladimir era judeu, nascido na Iugoslávia, de onde fugiu, criança, com os pais após,a II Guerra Mundial. Morreu, provavelmente, por não saber a razão de estar preso, inocente e revoltado.

João Batista de Andrade, seu amigo íntimo, resolveu contar sua tragédia pela boca de muitos outros amigos íntimos, num relato de começo, meio e fim, habilmente montado com trechos de várias vozes indignadas que, ajuntadas, não deixaram margem para dúvidas, pois contaram fatos verdadeiros e tristes de parte de nossa história.

P. S. Desnecessária a utilização da cadeira na praça, que poderia enfraquecer a importância do documentário, que não precisou de artifícios para se sustentar.

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