ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA:


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Original: Blindness
País: Canadá/Brasil/Japão
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal, Sandra Oh, Don McKellar, Maury Chaykin, Yusuke Yseya, Yoshino Kimura
Duração: 121 Min.
Estréia: 12/09/2008
Ano: 2008


Necessidade de agradar a todos faz Meirelles anular lirismo e poder crítico de Saramago


Autor: Fernando Oriente

Muitos acreditam que a discussão sobre o caráter autoral dos cineastas é infrutífera e elitista, mas se analisarmos de uma maneira mais complexa os rumos que o cinema vem tomando desde o início desse debate, somos obrigados a afirmar que são os “diretores autores” os grandes responsáveis pelo que de melhor chega às telas. Trabalhando dentro ou fora do esquema de indústria, esses cineastas imprimem suas assinaturas nos longas que realizam e se impõem a qualquer limitação de produção. Sem essas características, diretores são apenas mais uma peça – de grande importância – dentro da máquina de produção de filmes corretos e sem “alma”.

Desde Humberto Mauro, passando por Mario Peixoto e chegando aos grandes nomes do Cinema Novo e do Cinema Marginal, o Brasil sempre foi um celeiro de cineastas autores. Desde a chamada “Retomada” dos anos 90, esse tipo de diretor vem perdendo espaço no país, mas continua a existir na qualidade dos filmes de veteranos na ativa como Julio Bressane e Carlos Reichenbach e de novos talentos como Karin Aïnouz, Beto Brant e Cláudio Assis. Por mais celebrado que seja, nacional e internacionalmente, Fernando Meirelles não é um autor de cinema.

“Ensaio sobre a Cegueira”, adaptado do romance de José Saramago, é um filme concebido para ser visto como “profundo e reflexivo”, como uma metáfora para os dias de hoje, mas no fundo, não passa de um thriller de catástrofe com perfumarias visuais que tentam, mas não escondem suas nítidas limitações estéticas.

O belo livro de Saramago, que embora não esteja entre os melhores trabalhos do escritor, é um lírico estudo sobre as misérias do caráter humano e, com muito senso crítico, compõe uma complexa metáfora sobre a existência nos dias de hoje. Ao tentar transpor o romance para as telas, Meirelles visa apenas os aspectos espetaculosos dos dramas do autor português. Como típico representante do cinema de mercado, mas com pretensões artísticas, o diretor e publicitário dilui toda a complexidade das situações e reduz o alcance das discussões; tudo dentro da lógica de atrair o maior número possível de espectadores, sacrificando qualquer sutileza e sofisticação dramática que possa tornar o filme mais denso. As opções e os recursos usados por Fernando Meirelles reduzem própria diegese do texto original.

Um dos principais problemas do filme é a própria decupagem. A edição afobada e a construção apressada dos planos comprometem demais as situações dramáticas e o sentido de caos e desespero criados por Saramago. O lirismo dolorido do livro é abandonado e várias passagens do romance foram transpostas em cenas duras e frias, elaboradas com um mecanicismo estéril e de forma esquemática.

Principalmente nas seqüências da quarentena dos personagens principais, os planos se atropelam e anulam uns aos outros. Meirelles usa de recursos pobres para falsificar o caos e a angústia do texto de Saramago e acaba por destruir a densidade da relação tempo-espaço que possibilita a reflexão dentro do cinema. As ações chegam ao espectador de forma brusca, tosca e não há preocupação com as sensações provocadas e as conseqüências evocadas por essas mesmas ações.

As relações entre os personagens são mal conduzidas, anulando as múltiplas camadas das figuras dramáticas, assim como é nítida a incapacidade do diretor em imprimir texturas complexas às cenas. A boa intenção em fazer a fotografia em branco acaba servindo apenas para mascarar a falta de ousadia estética.

Três exemplos ilustram bem a ausência de sensibilidade e a pasteurização dos detalhes complexos do livro. A cena em que a mulher do médico corre desesperada com alimentos que acabou de pegar em um supermercado (nua da cintura para cima e comparada à tela clássica de Delacroix “A Liberdade Guiando o Povo” nas páginas do romance) e, em meio à degradação do espaço público, onde seres humanos se arrastam feito animais, senta e chora até ser consolada por um cachorro, é levada a tela por Meirelles de uma maneira artificial e apressada, onde a significação e a simbologia praticamente não existem. Essa mesma simbologia é agredida quando a igreja com suas imagens de santos vendados criada por Saramago é transposta para o cinema em uma seqüência afobada de planos curtos e mal montados. O lirismo e a prosa poética do autor português, claramente percebida no livro na seqüência em que as três personagens tomam banho na chuva, se perdem ao serem levados para o cinema pela mão pesada de Meirelles.

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