O ABORTO DOS OUTROS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carla Gallo
Elenco: Documentário
Duração: 72
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2007


Um documentário branco


Autor: Cesar Zamberlan

A cor branca é predominante em O Aborto dos outros. Os fades que representam a passagem de um caso a outro têm fade no branco. Os letreiros iniciais e finais do filme também estão escritos sobre essa cor. A brancura do filme, porém, mais do que uma opção estética é, sobretudo, uma opção formal e de abordagem diante de um tema tão difícil, doloroso e polêmico. O filme é tecnicamente branco. Nada de discursos emocionais a favor ou contra, nada de posições religiosas ou dogmáticas. O que temos são os fatos, as pessoas que vivenciam a questão no dia-a-dia: as vítimas, grávidas e familiares, e os profissionais que lidam tecnicamente com o aborto; os outros, no caso. E é desse outro, do qual falamos sempre com tanta proximidade, mas sem conhecer, que o filme se - e nos – aproxima.

O Aborto dos outros registra o dia-a-dia de mulheres que foram submetidos a aborto legal (caso de estupro e de má formação do feto) e traz depoimentos de mulheres que praticaram abortos ilegais. O filme retrata o quão traumática é essa situação e como um assessoramento legal, médico e psicológico pode tornar essa tragédia em algo suportável e com riscos consideravelmente menores à vida e integridade física das pacientes. Mas, o filme não assume esse posicionamento de forma aberta; o faz de forma branda, inteligente e notadamente branca.

Longe da campanha ostensiva, a postura do filme é técnica. Nada é escancaradamente engajado. Os depoimentos dos especialistas, inseridos após o registro da realidade a ser retratada - estrutura, aliás, que lembra a de Prisioneiro da Grade de Ferro de Paulo Sacramento, por sinal, produtor do filme - só evidenciam essa atitude, aumentando as qualidades do filme. Há, e não poderia deixar de haver, uma evidente tomada de posição, mas o risco dela ser ostensiva e por isso menos eficaz é evitado com maestria. Acompanhamos casos como o de uma menina de 13 anos que foi estuprada quando ia para a escola e como ela tem amparo total para fazer o aborto. O filme traz também o drama de uma mulher que, grávida, após o marido ter trocado um mês de sexo com o sonhado divórcio, tomou um remédio e induziu um aborto ilegal, o de uma outra mulher que fez vários abortos após relações mal planejadas e de uma outra que foi presa após denúncia de uma amiga. Todas, as que foram amparadas legalmente e as que passaram por cima da lei, como diz um dos médicos ouvidos pelo filme, viveram uma situação de fracasso, mas é óbvio que quando assistidas a situação é mais confortável e o risco de morte menor. Isso o filme retrata de maneira isenta, mas contundente. Retratar essas realidades tão parecidas, mas paradoxalmente tão distantes é, aliás, o maior mérito do filme. O confronto dessas duas situações é que coloca na tela uma tomada de posição, e nesse caso os eventos e os depoimentos falam por si, nada mais é necessário. Nesse sentido, O Aborto dos outros é bastante lúcido quanto à sua função, acabando por servir como munição àqueles que defendem a legalização para diminuir os altos índices de mortes resultantes do aborto clandestino.

P.S. Não se pode dizer que O Aborto dos outros é um filme facilmente assimilável, mas está longe também de ser um rolo compressor. Não custa lembrar que várias mulheres saíram desmaiadas do cinema nas sessões de 4 meses, 3 semanas e 2 dias , filme de ficção romeno que ganhou Cannes em 2007 e também trata do tema. A dura ficção do filme romeno, diga-se, é bem mais pesada que a verdade trazida por esse documentário. Isso talvez sirva de alento para várias pessoas que fugiram de O Aborto dos outros com medo de serem esmagadas por cenas e depoimentos chocantes. Também nesse sentido temos uma opção pelo branco.

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