AINDA ORANGOTANGOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gustavo Spolidoro
Elenco: Karina Kazuê, Lindon Shimizu, Janaína Kremer
Duração: 81 min
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2007


Experiência


Autor: Fernando Watanabe

Se o projeto do filme se baseia em um conceito, isto não faz com que o filme fique necessariamente refém deste. Pois, no caso, tal opção formal de uso de uma plano-seqüência - pré existente ao filme - possui a qualidade de favorecer a imersão do espectador na tela. Ao adotar um filme de plano único sem cortes, com certeza ele seria pouco interessante se trabalhasse com a idéia de panorâmica – ou, panorama – de um ambiente ou situação. A diferença de Orangotangos é a de que, sim, existe uma intenção de traçar um painel sobre determinada coisa, mas, essa coisa, circula mais em forma de evolução temática do que de revelação de vários aspectos de uma situação/acontecimento. Então, para cada novo personagem e situação que aparece no filme, investe-se tempo – às vezes um pouco além da conta – neles e, melhor, interage-se com eles via re-enquadramentos hábeis e na maioria das vezes pertinentes, regido por aproximações, distanciamentos dos personagens e variações na velocidade dos movimentos de câmera. Desenrola-se então uma pequena quantidade de “cenas” mas, explora-se bem cada uma, indo sempre até o limite de sustentação destas.

A opção de interagir durante bastante tempo com cada personagem favorece a empatia com eles e com o ritmo interno deles traduzido pela câmera. Dá-se existência a eles de forma verdadeira, constitui-se um pouco de elemento humano em meio ao peso do formalismo. O filme transpira e inspira frescor e jovialidade - mesmo que em diversos momentos do filme perceba-se um hiper controle por parte da realização, com marcações para os atores e enquadramentos muito elaborados. Mantém a boa pegada mesmo em situações de transição como o caminhar de personagens ou vagar da câmera por espaços vazios, sabendo dosar ações intensas com momentos de pausa e lentidão.

Claro que, antes de tudo, o dispositivo de realizar o filme em um único plano- seqüência pode acabar sobrepujando todas as outras formas de recepção ao que se vê na tela. Pode-se considerar o filme uma curiosidade estética, técnica, e de realização de produção e logística. A quantidade de filmes conhecidos por usar este dispositivo é restrita e sempre acaba estigmatizada. Mas, o que realmente importa, uma vez assimilada a noção do conceito adotado pelo filme, é estar-se livre para não deixar que o hiper formalismo conceitual bloqueie a imersão nas situações. Brechas para isso há várias.

Se observarmos o que acontece em algumas cenas, podemos tentar fazer conexões e configurarmos um tema principal dentre os vários que parecem existir no filme. Há pelo menos três situações que mostram homens abandonando ou deixando a mulher morrer. Ainda, no meio do filme e nos créditos finais, há músicas com trechos como “eu gostaria que você morresse” e “se eu pudesse matar você”. Homens se libertando de suas mulheres, uma vez que nenhum deles demora muito para abandonar sem muito sofrimento os corpos caídos de suas moças. Mas, tentar adivinhar o que o filme quer dizer com isso com certeza não é o modo mais adequado de apreciação que o filme pede.

Ainda Orangotangos é, sim, uma experiência, mas, não no sentido que designa “fazer qualquer coisa”, mas, sim no sentido de arriscar e admitir altos e baixos de maneira mais natural. É, antes de tudo, um filme; um trabalho de experimentar, de ativar a percepção, de questioná-la, tentar mudá-la, mesmo que por breves 80 minutos.

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