AINDA ORANGOTANGOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gustavo Spolidoro
Elenco: Karina Kazuê, Lindon Shimizu, Janaína Kremer
Duração: 81 min.
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2007


Um prodígio técnico. E mais nada.


Autor: Marcelo Miranda

Mais do que qualquer coisa, "Ainda Orangotangos", do gaúcho Gustavo Spolidoro, tem sido vendido como o primeiro longa brasileiro todo filmado num único plano-seqüência, que dura 81 minutos. É, de fato, um prodígio técnico. E mais nada. Porque as histórias entrecruzadas ao longo do filme, além de serem destituídas de alma e interesse, servem quase que exclusivamente para costurar os movimentos da câmera sem que seja preciso cortar as cenas. Spolidoro sai de um ambiente a outro, passa por locais movimentados, atravessa ruas, anda em ônibus e elevadores, adentra quartos, e nisso vai misturando personagens sem maiores relações. Se era para ser um filme-coral, termina por virar um emaranhado de situações menos preocupadas em gerarem algum tipo de reação do público do que para testar as possibilidades do dispositivo técnico.

Spolidoro ainda quebra algumas "regras" do plano-seqüência ao fazer o enredo do filme se passar não no tempo de duração do próprio plano, mas ao longo de 14 horas num dia qualquer de Porto Alegre. Por meio de pequenas elipses, caracterizadas por uso de luz e som, ou mesmo pela mudança de objetos de cena (como relógios), a idéia é manipular o tempo e o espaço num único plano. Ora, aqui, ainda que bem intencionado, Spolidoro esvazia sua proposta. O fascínio natural do uso de um plano-seqüência, o que o torna mais relevante e autêntico, é justamente capturar o instante e permitir que o espectador "monte" o filme na sua cabeça, ao escolher para onde olhar dentro da imagem e sentir junto com os personagens o que se passa na tela.

Quando Spolidoro tira isso do dispositivo e o torna um exercício de passagem temporal, de um quase determinisno do olhar (não nos é dada maiores possibilidades de para onde enxergar além do ponto onde a câmera está mostrando), a idéia por trás do plano-seqüência e de todas as suas possibilidades estéticas e expressivas perde muito da força potencial. Ainda Orangotangos, por conta disso, torna-se um filme frio, inócuo, que cativa mais pelo seu experimentalismo em si do que propriamente pelo uso que ele faz desse mesmo experimentalismo.



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