CANÇÕES DE AMOR:


Fonte: [+] [-]
Original: Les chansons d’amour
País: França
Direção: Christophe Honoré
Elenco: Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Chiara Mastroianni, Grégoire Leprince-Ringuet, Alice Butaud, Brigitte Roüan, Jean-Marie Winling.
Duração: 100 min.
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2007


Cantando o amor e Paris


Autor: Cid Nader

Existe um novo fenômeno em voga no cinema mundial que nos remete aos tempos dos musicais. São alguns filmes - principalmente oriundos das produções francesas - que anda resgatando esse gênero que parecia morto e extinto. Para algumas pessoas o gênero musical sempre soou como uma das maneiras mais estapafúrdias de se contar histórias - cinema ou teatro -, e há algo compreensível (no meu modo de entender, para o meu gosto) na aversão que tal cinema causa a cabeças mais antenadas com as possibilidades artísticas. Antes dessa "retomada" francesa, mas não muito lá atrás como nos verdadeiros tempos do gênero que remetem de meados para trás no século XX, Lars Von Trier surgiu com um filme duro demais em sua história, "Dançando no Escuro", de 2000, (fazia parte de sua trilogia das mulheres sofredoras que se completa com os anteriores "Ondas do Destino", de 1996, e "Os idiotas", de 1998), onde sua intenção era mostrar com quantas câmeras digitais poderia se fazer cinema, e no qual a personagem Selma, uma quase cega interpretado por Björk, discutia as razões de num filme, num determinado momento, alguém surgir cantando ou dançando do nada. Também, como uma peixe fora d'água e do tempo, surgiu a genial (um dos melhores e mais competentes musicais já feitos) animação "South Park: Maior, Melhor e sem Cortes", dirigido por Trey Parker em 1999, onde o gênero, no meio de todo o escracho da proposta, foi respeitado como em raríssimas vezes. Houve também "Moulin Rouge - Amor em Vermelho" (2001) do barroquíssimo Baz Luhrmann, mas nesse caso, apesar das invencionices e do "over" obtido, havia a referência a um lugar onde a música e a dança eram protagonistas por excelência.

Mas voltando a esse novo modismo ressuscitado basicamente pelos franceses, vale lembrar que a "novidade" vem com caráter inovador quando comparada ao que já se fez. Ano passado, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tive a oportunidade de ver "A França" de Serge Bozon e também os dois filmes de Cristophe Honoré, "Em Paris" (que já estreou comercialmente em SP) e "Canções de Amor", que está estreando agora. Esses trabalhos reiventaram o modelo e não o copiaram. Colocam as músicas justapostas à contemporaneidade dos filmes, impedindo que qualquer relação com o que se fazia antigamente seja evocada pelos que desprezam o gênero. Apostam em letras bastante pertinentes, abordam assuntos de modo bastante justo (no caso do "A França", com comportamento e pensamento libertário, numa história que se passa durante a Grande Guerra) ao seu momento, no qual a história desenrola, e não tem nenhum medo de parecerem estranhos no ninho.

Honoré se "cerca" de músicas bastante boas para serem cantadas em seus dois filmes. Lá em 2006, com "Em Paris" parece ter percebido a possibilidade da intromissão lírica no lugar de alguns diálogos e arriscou alguns poucos momentos musicais (com um final cantado lindo). Já com "Canções de Amor" escancarou de vez e fez o filme quase todo - ao menos nos seus momentos mais importantes, onde falar poderia significar pouco - cantado (músicas obtidas de um material já pré-existente, de Alex Beaupain). Paris é a cidade reverenciada nesse seu início de obra incipiente e serve com o cenário ideal para falar de histórias de amor desfeitos, amores que se construirão, amores impossíveis. É filmada de modo ligeiro e claro. Suas luzes noturnas são bastante utilizadas como se fosse forma de reverência ao apelido da cidade. Ligeira, moderna, não é esquecida também de dia e onde seus habitantes a habitam. No filme, alguns lares têm as portas escancaradas para que conheçamos toda a diversidade de personagens e é lindo um momento pós almoço comemorativo (Dia de Reis?), quando chove na praça Saint Michel e seu famoso anjo vira letra da música cantada, alternadamente, por quase todos que aprecem em cena.

Honoré constrói uma gama de personagens tão diversificada quanto atual, com seus problemas ou certezas. Parece ter escolhido também atores que cantam bem como um dos pré-requisitos. Voltando a citar rapidamente algo sobre essa "reinvenção" do gênero, me lembro agora que nos filmes dele a seqüência lógica permanece mesmo com a intervenção musical tomando o lugar da fala. Não há coisa (danças, letras, sons) surgindo do acaso e permanecendo resgitrada como algo estranho à lógica das seqüências. Há a substituição, que por conta da qualidade de sua sonoridade e letras faz com que o filme, nesses momentos, remexa de forma interessante nas sensações do espectador, elevando-o a um patamar de experimentação bastante interessante e catalisador. Mas a leveza da cidade filmada, a beleza arrancada das luzes e do vigor urbano, não escamoteiam os momentos dos dramas interiores. Vai mais longe o diretor, que além de evitar escamotear, além de explicitar o que se passa com os personagens em suas dúvidas, cria um quase rompimento abrupto e inesperado na trama, num certo momento e de maneira inimaginável - situação vivida pela personagem de Ludivine Sagnier - criando uma guinada ao posto até então, mas fazendo permanecer as eternas dúvidas amorosas dos outros dois personagens de um triângulo amoroso, vividos por Louis Garrel e Clotilde Hesme.

É evidente a aposta no carisma de Garrel - que já trabalhara no "Em Paris" -, e são ousados, para padrões um pouco mais caretas, alguns caminhos escolhidos para seu personagem. Talvez o foco a mais no astro queridinho das cinéfilas atualmente o exponha com caretas e trejeitos um tanto fora do esperado num filme que preza bastante a composição diferenciada e certeira de cada personagem - é daqueles trabalhos que não relega os secundários a simples panos de fundo -, mas talvez esse "pequeno exagero" interpretativo dele tenha sido opção do diretor para caracterizá-lo de forma mais calcada e caricatural. De todo modo não é empecilho a um belo filme, que ousa e reinventa na linguagem, que desnuda Paris, e que fala de amor com muita sabedoria e lucidez.

Leia também: