LINHA DE PASSE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Elenco: Sandra Corveloni, José Geraldo Rodrigues, João Baldasserini, Kaique Jesus Santos, Vinícius de Oliveira
Duração: 108 min.
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2008


Com os problemas e as virtudes de Salles


Autor: Cid Nader

Walter Salles disse em entrevista que esse seu novo trabalho tem a cidade de São Paulo como seu sexto personagem. Com certeza a cidade está lá presente como poucas vezes. Mas mais do que imaginá-la como um outro personagem do filme - não um de carne e ossos somente, mas também de latas, gases, concreto -, entendo a cidade no filme como o símbolo inequívoco do que o filme prega por todos os seus recantos: movimento. "Linha de Passe" é um filme em movimento. As câmeras raramente param durante todo o seu transcurso, buscando de modo incansável os personagens: perseguindo-os, atuando com eles, respirando. Hà o movimento típico da filmagem que não quer dar brechas para imponderáveis, que quer fazer os caminho ssem que espaços "mortos" ganhem lugar, e isso pode ser compreendido até como metáfora da cidade que, mais do que não poder parar, não quer parar, e não deixa que o seus - que os que habitam nela - parem. Essa opção da câmera em eterno movimento imprime uma bela marca estética ao filme, pois seu manuseio é feito sem os imagináveis solavancos que tal opção faria pressupor: muito ao contrário, as tomadas são bastante elegantes e calmas, próximas dos corpos - como já disse - e dos eventos; os detalhes não escapam (movimento) e são significativamente captados e revelados pela "elegância" e calma conseguidas. Curioso é que em raros momentos percebe-se uma tomada ostensivamente fixa, e nos dois de que me lembro, a cidade é revelada (mostrada) de longe, com toda a sua grandiosidade amainada, acalmada, pela distância - calma fortalecida e corroborada pelo trabalho de som desses instantes -, sob céu cinzento, como que a tentar explicar que no todo, na correria, quando vistos de longe, fazemos parte de um todo muito maior e talvez não mutável pelas nossas atitudes (aliás, o filme termina com todas as ações sem significativas conclusões, meio que sob o olhar superior e acinzentado da cidade), que o movimento excessivo é criação humana. Além do mais, tecnicamente, não dá para negar a importância de um "céu cinza": a fotografia mais bonita, o entorno ganha nuances que não são "invadidas" ou invalidadas pela luz chapada e monocromática que o sol excessivo tenta sempre impor.

Além da perseguição empreendida aos personagens pelas lentes, o movimento também está nas ruas do filme, com a "normalidade" veloz de uma urbe que não quer permitir calmaria - e isso se dá por toda a película, com o excesso das motos, os barulhos das buzinas, o vapor que emana dos veículos, ou com os ônibus que vão e vem e tem importância mais específica na história -; com a bola de futebol que não para jamais quando focada; na movimentação um tanto religiosa, um tanto coreografada, um muito fanática das torcidas no estádio de futebol; ou pela narração aditivada dos locutores esportivos radiofônicos. Todo o início do filme é plasticamente bem concretizado, com raro aproveitamento da força que emana das nossas arquibancadas de futebol (estranho esse quase desinteresse de nossa parte pela plástica de nosso esporte de cabeceira, numa atitude totalmente inversa à dos norte-americanos que sabem como retirar arte dos seus campos e ginásios). Todo o início do filme, aliás, é bem bom. Vai bem até a metade, quando percebe-se as opções estéticas dotadas - que se manterão firmes e boas até o final -; quando nos são apresentados os personagens, com calma, alternadamente, sem didatismo infantil, mas com justeza e facilidade de reconhecimento. Muito da percepção de cada um nessa sua apresentação se deve, também, pelo excelente desempenho deles.

Cleuza é bastante bem interpretada pela atriz Sandra Corveloni, como uma empregada doméstica que tem vários filhos, de vários relacionamentos, quase todos já jovens adultos - com exceção do moleque Reginaldo, em mais uma das surpreendentes composições do filme, meio ranheta, gozador, querendo ser mais adulto do que idade permitiria, interpretado por Kaique de Jesus Santos. Todos os outros filhos desempenham incrivelmente bem seus personagens - um que sonha ser jogador de futebol outro que trabalha sério e vira um crente meio fanático e mais um que trabalha por obrigação, galanteador, e sempre disposto a gastar seu raro dinheiro com novas conquistas. Cito com ênfase as atuações por saber raro tamanho acerto em parcela tão grande do elenco em nossa tradição cinematográfica mais recente. E vai assim, bem - bem filmado, bem atuado - o filme de Salles e Daniela Thomaz, na metade em que são apresentados temas e personagens.

Mas na "segunda metade" o trabalho tropeça na falta de profundidade, numa certa falta de trama, num "o que dizer para fazer razão de ter sido criado tudo isso até aqui". Os personagens que tem bela capa e bom desenvolvimento técnico se mostram sem "estofo". O desenvolvimento de suas histórias pessoais, o algo a mais a dizer, o que dá sustentabilidade a filmes completos - continuidade da narrativa para além da capa, para além do desenho certo -, as nuances para provar que os personagens são mais do que simplesmente boa composição de atuação, se mostram capengas (na realidade quase não se mostram), e o filme toma uma direção que aposta no emocional como o modo de manutenção, desenvolvimento e solução. É um certo "problema" recorrente na obra do diretor Walter Salles - e quando digo problema, talvez esteja dizendo até num caráter mais pessoal, já que é evidente o apreço de parte do público por essas soluções facilitadoras e emotivas que ele encontra e emprega -, que se exime de apostar mais forte num desenvolvimento mais profundo, no "adultecimento" de suas crias, optando pelo caminho mais comum e empobrecedor da excessiva emotividade. Todo o belo início sucumbe à falta de ambição humana dos personagens, à falta de amadurecimento interior para além do amadurecimento plástico e de funcionalidade para a telona. As modificações de comportamento, as tomadas erradas de atitudes de alguns, as consequências de atos praticados por outros, convergem para últimos momentos fatalísticos. Tudo de "importante" se passará ao mesmo tempo e as não conclusões ostentadas abertamente acabam revelando apenas um truque para fazer crer que um "não fatalismo" foi pensado como o mote catártico - quando na realidade a catarse em único momento (na convergência dos dramas) está ali se jogando nos colos. Belissimo na concepção e nas opções técnicas. Manjado na hora do vamos ver.

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