HELLBOY II, O EXÉRCITO DOURADO:


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Original: Hellboy 2: The Golden Army
País: EUA
Direção: Guillermo Del Toro
Elenco: Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, John Hurt
Duração: 120 min.
Estréia: 05/09/2008
Ano: 2008


Excessos do novo filme são salvos pelo bom humor


Autor: Laura Cánepa

O cineasta mexicano Gillermo del Toro não prima exatamente pela sutileza. Seja nas citações de outros filmes, na criação de imagens fantásticas ou na forma explícita como retrata a violência, exibe uma busca constante pela obviedade e pelo exagero. Não que isso seja necessariamente um problema. De fato, tal característica é tão constante em seu cinema que pode ser vista como uma marca estilística.

E foi com essa marca que Del Toro conseguiu ser indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro com o violentíssimo Labiritno do Fauno (México/Espanha, 2006), e também legou ao cinema de horror dos anos 2000 um de seus filmes mais interessantes, A Espinha do Diabo(Espanha, 2001), assim como uma das melhores obras de fantasia do cinema mexicano, Cronos (1993).

Paralelamente a essa inventiva trajetória, conduzida entre México e Espanha, o cineasta também encontrou espaço em Hollyoowd, realizando filmes fantásticos sob encomenda para grandes estúdios, como Mutação(1997), Blade (2002) e Hellboy (2004) - filmes, que, mesmo não sendo produções de primeira linha, também estão longe de ser desprezíveis em termos de orçamento e de ambições comerciais. Nesse universo, porém, a carreira de Del Toro é bem mais irregular, tanto do ponto de vista da repercussão de publico quanto da qualidade estética, mas parece ganhar um novo fôlego com Hellboy II.

O filme dá continuidade à saga iniciada em 2004, baseada nos quadrinhos de Mike Mignola (que é co-roteirista dos dois longas). Na história, um menino demoníaco que foi encontrado, nos anos 1940, por um departamento da CIA especializado em paranormalidade, teve um tutor zeloso que o transformou numa arma secreta à serviço do exército americano. Apelidado de Hellboy, esse menino cresceu e se transformou num monstro forte e bonachão (interpretado por Ron Perlman), que convive, numa unidade secreta do governo, com outras aberrações semelhantes, como a sua namorada Liz, que é uma espécia de "tocha-humana" (interpretada por Selma Blair) e seu fiel amigo Abe Sapien, um homem-peixe altamente culto e sofisticado (Doug Jones).

No primeiro longa da série, Del Toro, que assinou o roteiro junto com Mignola, parecia inseguro e dedicado a apresentar os personagens e a estabelecer os alicerces da história. Agora, no entanto, parece ter tomado a frente no roteiro, realizando um filme muito mais solto e bem-humorado, e modificando um pouco o aspecto altamente sombrio dos quadrinhos.

E são exatamente esses momentos de humor que sustentam Hellboy II, sobretudo em cenas que retratam o cotidiano dos personagens principais. Pois, quando o filme se concentra na ação e numa confusa história de elfos, anões, elementais e outras centenas de seres fantásticos, percebe-se um tal excesso de virtuosismo (nos movimentos de câmera, na direção de arte, no desenho de som, nos efeitos especiais...) que o resultado é um conjunto cansativo em que o espectador não encontra qualquer respiro ou abertura para a imaginação: tudo é dado em demasia e com raras interrupções.

Assim, o destaque, por incrível que pareça, pertence aos atores supermaquiados Ron Perlman e Doug Jones, que protagonizam os melhores momentos do filme, como uma cena impagável ao som Barry Manilow (intérprete de algumas das canções mais bregas já compostas na música pop americana).

Um detalhe, apenas, deixa uma ponta de incoerência na proposta do filme: o pudor de Del Toro ao (não) exibir qualquer cena amorosa de seu par central. Tudo bem, pode ser que o público não esteja preparado para ver um beijo entre o homem demoníaco e sua bela namorada incendiária, mas então porque esse mesmo público estaria interessado em ver "fadas do dente" sendo trituradas e faunos sendo cortados ao meio? Essa questão, o filme deixa sem resposta, mas nos permite inferir a tão comentada caretice do atual cinema feito em Hollywood, no qual o desejo de violência extrema é visto com muito mais condescendência do que o desejo por qualquer forma de amor e sexo.

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