CASTELAR E NELSON DANTAS NO PAÍS DOS GENERAIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Alberto Prates Correia
Elenco: Documentário.
Duração: 73 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2007


"Castelar": caótico no bom sentido.


Autor: Cid Nader

Definir esse trabalho de Carlos Prates Correia como "documentário caótico" me parece ser bastante pertinente. Mais do que isso talvez: um elogio. Narrando um período bastante particular da cinematografia mineira o trabalho de Prates envereda por vias tortuosas e de quase nenhum reconhecimento mais amplo junto à grande massa cinefílica – mesmo entre os mais entendidos. Relata situações de cineastas e críticos que viraram realizadores que parece quase sempre restrita ao conhecimento mais específico de quem vive enclausurado pelas montanhas que formam o terreno e um certo modo específico da manifestação cultural local – sempre penso e percebo um certo distanciamento no que se realiza pelas terras de lá como fruto gerado pelo isolamento; noto isso na música e também no cinema.

Para "complicar" mais ainda essa história de distância, o documentário relata trabalhos e seus confeccionadores que executaram suas obras durante o período militar. Carlos Prates militou basicamente dentro desse período (um pouco mais além, certo: entre 1970 e 1989) e desde então não realizou qualquer outro filme. Volta agora como que querendo expurgar esse afastamento. E encontrou como melhor maneira de "psicanálise" relatar a esse mundo distante das montanhas o que se fez de melhor e "mais oculto" por lá, dentro desse período. Aí começa o caos.

É que "Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais" já inicia com um estilo de informação – ou falta de – que poderia caracterizá-lo como trabalho dentro de uma corrente muito em voga: não privilegia as informações via informações interpostas nas imagens por créditos. Os personagens e filmes vão se sucedendo na tela e as informações sobre "quem" ou "o que" são não é oferecida – esse tipo de construção documental vem tomando corpo ultimamente, como um modo de fazer a obra ganhar velocidade e fluidez; com menos bloqueios, deixando para quem opta por isso, se "virar" de outras maneiras para se fazer entendido. Só que não pé bem assim por aqui nesse trabalho de Prates: a partir de um certo momento as informações escritas passam a tomar alguns espaços e percebe-se que, realmente, algum tipo de caos deve ter povoado a cabeça do diretor na hora da execução de sua obra.

Mas é muito bom isso. Primeiro porque faz com que a atenção fique redobrada ao que sucede – e não é pouco. Segundo porque faz com que vibremos a cada referência conhecida: participamos do trabalho de garimpo. Trabalho de garimpo que vai revelando seqüências geniais de vários filmes realizados por lá: tem Joaquim Pedro de Andrade, Schubert Magalhães, o grande Andréa Tonacci (mais especificamente com "Bang, Bang", realizado por circunstâncias em Belo Horizonte). E dentro dessa proposta em mostrar trechos de filmes reside o maior mérito deste interessante trabalho: a quantidade de cenas e seqüências que povoam a tela é inimaginável – diria que uns 90% do documentário é de trechos de filmes, e para quem gosta realmente de cinema, nada mais perfeito. O fato de não saber ao certo o que são alguns cria um clima em nossas mentes bastante interessante. A ponto de nem permitir que algumas seqüências ficcionais, atuais, interfiram negativamente em alguns de seus momentos fracos – há alguns momentos ficcionais criados para contar um pouco mais da história de Prates (nem todos fracos), e uma narradora citando belos trechos de críticas (aliás, ficção inventada que segue mais um modismo dentro do estilo). No final, talvez a invenção do gênero "documentário caótico".

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