OS DESAFINADOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Walter Lima Jr.
Elenco: Rodrigo Santoro, Selton Mello, Claudia Abreu.
Duração: 128 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2008


"Os Desafinados": novelesco.


Autor: Cid Nader

O diretor Walter Lima Jr. fez um filme que parece desde seu início confeccionado para enganar o bom modo de fazer cinema. Já começa com a possibilidade de atrair o grande público através da utilização manipulada de atores com forte atração específica (apelo popular, num modo mais clichê): mais especificamente, Rodrigo Santoro (Joaquim) com sua pinta de galã, fazendo o papel de galã (afinal de contas) da trupe de amigos que formam o grupo musical, Os Desafinados; e Selton Mello (Dico), apostando na sua "farsa" cômica, que vem sendo utilizada e reutilizada por diretores mais acomodados. Os dois atores desempenham essas funções para as quais foram requisitados de maneira competente, até, mas o fato de perceber que o diretor os utilizou como muletas em busca de uma facilitada empatia com o público já indicava desde o início que o filme não teria muito a oferecer.

Poderia-se até pensar aceitável tal atitude em diretor assumidamente comercial ou iniciante, mas vinda de alguém que já fez alguns grandes filmes ("Menino de Engenho", 1965; "A Lira do Delírio", 1978; ou a "Ostra e o Vento", 1997), acaba por causar mais espanto, e acaba por evitar pensar no filme com um pouco mais de boa vontade. Acho justo não existir "boa vontade" nesses casos. Não sendo tão importante o papel da crítica como "movimentadora" de público, é importante para fazer com que autores pensem e se repensem. O jeito, a tocada do filme, é todo muito "facilitado": parece um pouco história de novela, ou de mini-série. Ele conta sobre uma cantora, Glória (Cláudia Abreu), que vive em Nova Iorque na década de 60, e de um grupo musical que tenta a vida por lá - o resto do grupo é composto por PC (André Moraes), Geraldo (Jair Oliveira) e Davi (Angelo Paes Leme). Todos esses, atores dos "tempos antigos" do filme, que ganham nova representação e protagonistas nos tempos atuais.

Sim. Tempos antigos e atuais. A história é contada de maneira novamente acomodada por flash-backs, muito mal costurados. As atuações dos não atores - ou dos mais desconhecidos - são despretensiosas demais; fúteis demais; risonhas demais. Só combinam com a aparente despretensão do filme. E assim vai indo. Reconstituição de época razoável, erros de gírias e trejeitos, futilidade e nada de muito inovador - tanto na forma narrativa, como na história. Mas vai indo. Simpaticamente para alguns. E quando a gente resolve aceitar um pouco a proposta como se fosse filme de entretenimento somente descompromissado, endereçado para o público que não quer gastar um pouco a cabeça e somente assistir a historinhas com força de drama novelesco, o diretor resolve intrometer uma história de repressão. Evocar a ditadura, Assim, do nada.

Como que para dar "estofo" ao filme. Como que para fazer crer que nunca pensou em "Os Desafinados" como somente um filme bobinho. E fica muito pior a emenda - na realidade nada de emenda; algo pensado desde o início, e muito mal pensado. Resta uma sensação de coisa bem ruim mesmo. Resta a sensação pior ainda de que quiseram me enganar.

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