LA LÉON:


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Original: La Léon
País: Argentina
Direção: Santiago Otheguy
Elenco: Jorge Román, Daniel Valenzuela, José Muñoz, Daniel Sosa
Duração: 85 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2006


"La León": um olhar melancólico sobre a fragilidade humana


Autor: Anahí Borges

Álvaro é um homem solitário e melancólico. Habitante da ilha às margens do rio Paraná e seus afluentes, convive com a cultura rústica e machista da região, fato este que o estimula a esconder da sociedade a sua homossexualidade. Os primeiros planos do filme já definem a sua poética: melancolia, plasticidade, contemplação e certa atemporalidade são reveladas pelo uso de elementos formais tais como enquadramentos detalhistas que valorizam a composição de cada quadro (na articulação das formas geométricas e na distribuição das tonalidades de cinza); o uso do silêncio e a construção da comunicação pelo olhar das e entre personagens; o enquadramento a partir do ponto de vista de Álvaro em sua canoa. Este, aliás, é justamente o motivo visual do filme: movimentos de câmera que significam e reproduzem o movimento da canoa na água; e por fim, protocolando a opção formal para tal poética: o uso do preto e branco.

Dessa forma, aquilo que em cores seria o vapor da água na região de um verde tropical se transforma em bruma, o suor, em brilho e o que seria demasiadamente naturalista, em poesia. A história atinge níveis que ultrapassam sua territorialidade: embora contextualizada nas margens do rio Paraná, retratando inclusive os conflitos sociais locais entre os moradores da ilha e os imigrantes paraguaios, esse espaço físico não é determinante para a narrativa, que poderia certamente acontecer em qualquer ilha. Esse qualquer lugar que o filme abaliza é um de seus méritos, posto que o material sobre o qual se debruça, e de fato tem interesse, é o material humano, os sentimentos e conflitos do indivíduo diante das estruturas sociais a que está inserido. No caso, o indivíduo de uma comunidade provinciana, que vive da pesca e da colheita de juncos. A violência, egoísmo e intolerância de El Turu, motorista do barco-táxi La León (único meio de transporte efetivo da região), também convergem para a idéia de fragilidade do indivíduo. Isto porque apesar de rude, El Turu é um homem que não sabe lidar com seus tormentos íntimos e a obsessão que possui por Álvaro é uma forma de projetar suas angústias.

E assim “La León” se apresenta: um olhar melancólico sobre a fragilidade humana. Olhar contemplativo, que navega, materialmente falando, pelo espaço-tempo representado de forma a observar a dor existencial do sujeito que se difere da estrutura social cristalizada ao seu redor. O silêncio, a solidão e a resignação como matéria-prima de um discurso que se vale de beleza formal ímpar e que renega qualquer tipo de sentimentalismo. Santiago Otheguy realizou um filme luminoso, que conjuga a plasticidade da paisagem com a melancolia do ser humano, revelando beleza na dor, porque afinal a vida está no sublime, como no atroz.

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