SHORTBUS:


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Original: Shortbus
País: EUA
Direção: John Cameron Mitchell.
Elenco: Paul Dawson, P.J. DeBoy, Lee Sook-Yin, Lindsay Beamish, Raphael Barker e Justin Bon.
Duração: 101 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2006


"Shortbus": parafernália carnal


Autor: Érico Fuks

Shortbus parece significar aqueles ônibus amarelos tipicamente norte-americanos conduzidos por motoristas de quepe escuro que levam as criancinhas para a escola. Mas não é nada disso. Pelo menos é o que promete o dono de uma casa GLS underground, um andrógino glitter e sádico nas mesmas proporções, ao receber seus convidados. Ele não descreve em palavras aquilo que se observa explicitamente ao fundo: amor livre, mas livre mesmo. Homem com homem, com mulher, com mais homens e mais mulheres. Essas homéricas boas-vindas, se não chegam a ser o resumo da ópera, ao menos dizem muito da visão de mundo do diretor John Cameron Mitchell: a sociedade precisa apagar os solidificados conceitos léxicos e estar preparada para a sucessão de impulsos libidinosos imprevisíveis dentro de um catre imenso e proibido.

Este amor livre e mundano, entretanto, está longe de ser interpretado como um ato nobre aos olhares do diretor. “Quero amar todas as pessoas do mundo”, frase que denota o desejo de um dos protagonistas, é contextualizada não como um gesto calcutesco de altruísmo, mas sim em perspectiva cínica diante da impossibilidade da concretização de um sonho e do exagero de consumo desenfreado de tremores orgasmáticos. Muito rapidamente, uma outra frase de impacto é mencionada no intervalo dos coitos. Mais uma vez, o discurso falado se sufoca diante de imagens que, em tese, são expostas pra chocar. Entende-se que Shortbus não está conduzindo os sexualmente fracassados a lugar algum; apenas dando a eles um pouco do estagnado conforto king size em néon para se tentar recuperar a auto-estima de uma sociedade deprimida pós-11 de Setembro.

Mas tanta parafernália carnal serve apenas para reproduzir um discurso pseudo-libertário que busca, redundantemente, a parafernália carnal. Mitchell explora em doses cavalares a megalossexia e esquece a sexualidade. O amontoado de corpos em movimentos constantes e desordenados traduz muito mais uma imagem em quadro de um conjunto do que as percepções individuais. “Shortbus” torna-se mecanicista e, assim como a cópula, repete seu vai-e-vem de câmera. Não chega a abandonar a particularidade dos protagonistas. Há cenas mais intimistas que se alternam a esse quadro pantagruélico de deglutição. E ali Mitchell se dá muito bem. Entretanto, outros momentos solteiros de respiro beiram um jeito Greg Araki de mostrar o elenco: a terapeuta sexual sentada num sofá erótico, os vibradores acionados por comandos remotos, enfim, apetrechos de uma sociedade kitsch.

Essa multiplicação de significantes predominante no filme não só reflete os novos tempos mais amorfos sobre a questão de se amar o próximo, mas também dilui a força de suas intenções. O primeiro longa do diretor, “Hedwig”, era mais vigoroso. Até na música se nota esse amolecimento: ali havia uma aura glam-punk nervosa inspirada na banda New York Dolls. Já a trilha sonora de “Shortbus” é executada em clima de fim de festa pela banda indie shoegazer Yo La Tengo. Mitchell, nesse sentido, procura aliviar as seqüelas dos norte-americanos pós-ataque terrorista com sua injeção de morfina ao grupo citologicamente frígido e psicologicamente deprimido. Funciona como efeito de uma causa no mínimo preocupante: Nova York está em curto-circuito. A orgia enclausurada serve, então, de prenúncio a uma retomada do prazer, caótica e feronômica. “Shortbus” é, acima de tudo, um filme ao mesmo tempo tímido e corajoso. Não sofre qualquer tipo de pudor ao misturar sentidos e referências auto-suficientes. Mas, em relação à verdadeira rebeldia anunciada, ainda carece de alguns pequenos choques elétricos.

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