O MISTÉRIO DO SAMBA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor
Elenco: Documentário.
Duração: 88 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2008


Marisa Monte em excesso


Autor: Cid Nader

Lula Buarque e Carolina Jabor até utilizaram algumas belas cenas do melhor trabalho que já vi abordando o belo assunto que é a Velha Guarda da Portela – que é o documentário lá de 1975 realizado por Fernando Faro para a TV Cultura de São Paulo. Um dos problemas resultados das opções dos diretores – que fazem parte da turma da Conspiração (RJ) – reside justamente na comparação inglória entre o documentário realizado “secamente” em PB para a televisão (preciso em cada registro, sem superficialidades ou sobras estéticas, reverente aos homenageados – e somente a eles, fazendo-se entender pelo público como trabalho que relata um mundo e seu interior sem deturpações ou interferências de “estrangeiros” – e simplório nas declarações obtidas de cada “depoente”) e esse trabalho deles que é até muito belo pelas opções estéticas adotadas (edição de fotografia de Toca Seabara, edição – esplendorosa – de som de Denilson Campos, ajuntamento interessante na edição de imagens e “momentos” antigos com fluidez sem rompimento quando postas na “fila” das imagens captadas atualmente…). Quando me pego elogiando “Mistérios do Samba” logo no primeiro momento em que cito um de seus problemas, faço justiça aos bons momentos que o trabalho com certeza tem. Mas quando cito a comparação entre as duas obras – de veículos diferentes – em detrimento da atual, creio que seria justo interpor um dos outros problemas notáveis (talvez o maior) que fazem deste uma obra débil e viciada: a presença ostensiva e determinante da cantora Marisa Monte.

É assim: no trabalho da TV Cultura, os sambistas são a atração inequívoca. Suas histórias por si só já bastam para configurar um mundo à parte da população “branca” do país – digo aí, “população branca” num sentido metafórico, querendo referir a uma parte da nação que desconhece a outra que vive e executa uma de nossas maiores manifestações de vida, que é o samba. Percebe-se que Faro sabia que eles têm como falar de si só como ninguém; que somente eles saberiam demonstrar aos “ignorantes” a sua cultura, a origem de sua poesia e seu modo de vida (alias, são muito elucidativos dois momentos costurados com fragmentos do programa de 1975 em que se fala da origem, dos primeiros empregos e a subseqüente percepção que dali poderia resultar a música adormecida no âmago). Já em “O Mistério do Samba”, a origem do que idealizou sua criação – a intenção teria surgido da idéia da cantora Marisa Monte em “cantá-los” em um trabalho seu, num álbum integral, e não só por pequenos exemplos – se impõe sobre suas matrizes: os velhos sambistas são relegados – mesmo que se tente não permitir que isso fique evidente sem um pouco de raciocínio crítico (há os truques na edição que corta rapidamente, põe músicas saídas do nada, se vale das exposições simples e humanas que são comuns às pessoas abordadas - sambistas e os de seu entorno, que contam de seus amores antigos, falam de suas desavenças, de seus desamores também, das suas predileções, bebidas, mulheres, homens) – a um plano de coadjuvantes de luxo da cantora. O que prevalece na realidade – ao contrário do que afirmou Lula Buarque na coletiva que ocorreu hoje – é a valorização da “bondade” de Marisa que se transforma numa benemérita divulgadora da Velha Guarda. Lula disse nesse encontro com os jornalistas que o filme era sobre as histórias particulares de cada um de lá, mas o que o filme evidencia é que há sempre Marisa como sombra constante; como e fosse a única entendedora do que lá ocorre; como se fosse quem se dignou a cantar as belas poesias deles antes de qualquer um (a única); como uma protetora (algo de que eles realmente não necessitam).

Um mal meio recorrente na turma da Conspiração, que trabalha sempre com pessoas de seu núcleo (um é parente do outro, um é casado com a irmã de um outro, que sempre foi seu amigo de infância…) e que impossibilita que eles vejam o mundo em sua volta como algo que pode sobreviver somente por suas próprias forces – mesmo que em seu discurso, talvez até acreditando mesmo no que dizem, eles façam transparecer que trabalham com consciência na “amplidão”. Dentro desses relatos dos reais conceitos do documentário estão diversos de seus males, que acabam por sepultar – ao menos a mim de forma contundente – as virtudes que recaem na singelidade e sinceridade das pessoas de lá, que conseguem escapar das “garras” de M. Monte; o belo trabalho de som captado na grande mesas onde entoam músicas; os grandes momentos antigos montados aos atuais; e alguns dos belos momentos atuais capturados por câmeras que espiam e se movimentam organicamente, em closes, em giros, dando vida e ditando, por vezes, o ritmo.

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