PELOS MEUS OLHOS:


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Original: Te doy mis ojos
País: Espanha
Direção: Iciar Bollain
Elenco: Laia Marull, Luis Tosar, Candela Peña, Rosa Maria Sardà, Sergi Calleja, Elisabet Gelabert
Duração: 106 min.
Estréia: 29/08/2008
Ano: 2003


“Pelos meus Olhos”: Falta de ousadia compromete drama sobre violência doméstica


Autor: Fernando Oriente

No cinema atual, uma das principais tendências que impede os cineastas de produzirem bons trabalhos é a falta de ousadia e a aceitação do ordinário. Talvez movidos pelo medo de não atraírem público para seus filmes, a grande maioria dos diretores aceita fazer inúmeras concessões que limitam demais o potencial de suas obras e as reduzem ao lugar-comum e à mesmice.

Em “Pelos meus Olhos”, a diretora Iciar Bollain, aborda o tema da violência doméstica. É um assunto muito sério que, embora já tenha sido abordado outras vezes no cinema, tem potencial para ser trabalhado de forma mais complexa. O que falta ao filme de Bollain é ousadia, uma atitude que não demonstre medo em se aprofundar.

O que vemos no longa é uma nítida carência de tempo para a reflexão e para a contemplação. Não existe preocupação em se aprofundar nos sentimentos dos personagens. Embora a violência doméstica reduza suas vítimas ao estado lastimável da perda da subjetividade, mostra-se muito as ações, mas não se trabalha as sensações e o contexto psicológico dos dramas encenados. É o antigo vício do cinema que não consegue se libertar do desenvolvimento narrativo clássico, da necessidade de trabalhar as amarras da história como um todo sem se preocupar com a densidade e o peso das ações isoladas em si.

Como resultado desse processo, “Pelos meus Olhos” tem excesso de diálogos rasos em que frases de efeito se perdem em meio a situações banais e construídas em cima de clichês. Esses estereótipos vão desde as caricaturas grosseiras do machismo dos homens que freqüentam uma terapia de grupo até a relação da personagem principal com sua irmã. Enquanto ela é uma vítima “cega” da violência do marido, sua irmã é a única que vê a real ameaça que a brutalidade dele representa.

É lógico que a cineasta, como mulher espanhola, sabe muito bem da violência e da ignorância que caracterizam muitos dos famosos “machos latinos”. Mas a idéia de denunciar esse grave problema em cima de uma construção de clichês e estereótipos acaba por reduzir o potencial da própria discussão do tema em si.

Outro exemplo em que as limitações das concessões da cineasta ficam nítidas é a pobreza das metáforas, como na tentativa em associar a busca de sua personagem pela beleza e pela paz através de seu interesse por quadros de pintores espanhóis ilustres. Não é que a idéia da metáfora em si não seja boa, é na execução das propostas que Bollain se perde. Isso fica ainda mais claro na maneira em que a boa opção em fazer com que o marido freqüente uma terapia em grupo para lidar com sua agressividade e seu comportamento violento se perca na banalização que a diretora imprime ao tratamento do longa.

A falta de ousadia da diretora, a escolha em não aprofundar o material com que trabalha, faz com que aspectos importantes levantados pelo roteiro sejam abordados com superficialismo e de forma rasa. A dependência sexual que a mulher tem pelo marido (que rende uma tensa cena de sexo que é um dos poucos pontos altos do filme), a carência afetiva que ela carrega e o sentimento obsessivo de posse dele somem na mesmice da condução que Bollain imprime a seu longa.

Apesar de todos esses problemas, dois aspectos chamam a atenção no filme. Primeiro a boa presença de Luís Tosar como o marido e, em segundo lugar, o bom desfecho do longa em uma bela cena final, que tem todos os seus méritos por ser composta de maneira objetiva, direta e seca, explorando de forma segura o impacto da resolução final da protagonista.

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