NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Reinaldo Pinheiro
Elenco: Leonardo Medeiros, Paulo César Pereio, Maria Manoela e Milhen Cortaz.
Duração: 104 min.
Estréia: 15/08/2008
Ano: 2008


"Nossa Vida Não Cabe num Opala", nem num bom filme


Autor: Cid Nader

Baseado num texto teatral de Mario Bortolotto, esse filme dirigido por Reinaldo Pinheiro vem precedido de longas discussões e desavenças entre alguns de seus idealizadores. Mas como pretendo tratar somente da obra fílmica vou diretamente ao assunto. E não foi lá muito bom o que vi como execução da arte. Antes de qualquer coisa é preciso ressaltar que no seu andamento, "Nossa Vida Não Cabe num Opala" carece fortemente de ritmo. O filme não desenvolve, não flui com naturalidade. As histórias de cada personagem são muito estanques (isoladas) umas das outras, e nos momentos do amálgama parecem manter-se refratadas. Necessário lembrar que o cinema até pode trabalhar com esse intento do isolamento, da não conjugação em busca do anti-naturalismo, mas, sinceramente, essa não me pareceu jamais a intenção oficial do diretor. Há uma evidente falha de ligação, de encadeamento, provavelmente originada no momento da edição, da montagem – saber o quanto isso pode ter tido sua razão na falta de opção de material filmado já exigiria exercício de adivinhação, já que não me lembro de ter lido qualquer coisa referente partida da boca dos realizadores.

Talvez a história também não seja lá muito boa mesmo. Tem uma queda para um lado do dramalhão que remete a um certo modismo praticado por alguns setores das artes nacionais, ultimamente. Famílias disfuncionais já compuseram bons painéis na história do cinema e do teatro, mas insistir na estranheza de modo tão exacerbado... Fazer "estranhos" quase todos os personagens que freqüentam o campo que forma a "trama humana" da história remete a uma facilitação que vem reincidindo, e que procura o choque como forma de capturar um certo tipo de público. E isso sem aprofundamentos - nem sempre é de se exigir aprofundamentos, sei, mas é que o "estilo" da história jogada nos colos dos espectadores está todo formatado para que tentemos entender os personagens lá no seu âmago -; sem nuances criveis (talvez o caso do irmão mais novo, Lupa, interpretado por Milhem Cortaz, seja uma exceção, apesar de não haver problemas gravíssimos nas interpretações dos outros personagens, mas servindo para reforçar mesmo para a superficialidade na criação deles, que são pretendidos como complexos ao extremo).

Não queria contrapor a obra teatral à obra cinematográfica, mas é evidente, sabido e notório, que figuras que freqüentam os palcos tem tinta mais forte em sua composição – a distância do público, o uso do gogó, a necessidade de serem percebidos sem o auxílio da telona que nos coloca na cara os trejeitos e modo de respirar. No filme – além do artificialismo que a história original impõe à criação dos tipos e de suas "psiquês", e apesar de não haver falhas graves nas atuações -, uma tinta forte é tentada o tempo inteiro (não sei se ao modo do texto teatral – mas imaginaria que sim -, já que não o vi encenado), e acaba por escorrer, "sujando" os outros mecanismos de composição: o que alia-se à falha na montagem.

Apesar da evidente procura da "marginalidade", a película é fotografada de modo comportado e, além do mais, editada de modo comportado. Quando alcança algo mais ousado é pela escolha da música (aliás, boa): principalmente pela opção em utilizar trechos do clássico "Corredor Polonês", da Patife Band (liderada por Paulo Barnabé, que executou nosso melhor momento "punk"). Mas Pinheiro não faz com que ela modifique ritmos, cadencie sequências, e opta por recortá-la caretamente dentro das costuras das partes. Provavelmente alcançará uma fatia de público - pelas reações, pelas conversas sobre o trabalho, pelos prêmios obtidos -, mas não saberia identificá-lo (a esse público), ou fisgá-lo de dentro da camada cinefílica.

Leia também: