ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Mojica Marins
Elenco: José Mojica Marins, Milhem Cortaz, Adriano Stuart, Zé Celso e Jece Valadão
Duração: 98 min.
Estréia: 08/08/2008
Ano: 2007


Explosão de cinema na tela


Autor: Cid Nader

A cada dia que passa, não me resta qualquer dúvida sobre ser "Encarnação do Demônio" um dos filmes que mais me impactou e impressionou (positivamente) nos últimos tempos. Num primeiro momento - quando o vi durante o festival de Paulínia - dizia que não me sentia capaz ainda de analisá-lo com todas as possibilidades de interpretações que ele me entregou e ao público, que teve a oportunidade de vê-lo naquele momento em primeira mão (disse também, que o festival já mereceria uma marca na história por ter tido essa chance da estréia do trabalho para o público. Emendo, dizendo que Paulínia premiou o filme, ao final, como o mais querido pelo júri e pela crítica). "Precisaria revê-lo ainda mais uma - ou mais, provavelmente – vez". Vi, e o que resta de modo inequívoco é que qualquer alteração que eu venha a fazer no meu texto original ficará ainda distante da qualidade do trabalho; diria que o filme ainda mereceria dissecações e louvações muita mais generosas do que as que me sinto em condições de realizar.

Terceiro filma da trilogia que iniciou em 1964 com "À Meia-Noite Levarei Tua Alma", e que teve na seqüência, em 1967, (talvez seu trabalho mais mitológico e falado) "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver", vem recheado de histórias externas para essa sua concretização, quarenta anos após.Em vários comentários a respeito da película, antes de seu desvendar, falava-se do medo que provocava a associação dos produtores do filme à distribuição pela FOX. Falava-se, com receio reverente – por conta do que o diretor sempre manteve como marca registrada de independência – da possibilidade de uma necessidade de acomodação ou adaptação a alguns dos parâmetros que costumam gerir as idéias de produções norte-americanas. Existia o receio da crueza e da agressividade do diretor, vistas sob os olhos um tanto mais amedrontados de uma distribuidora que jamais permitiria que seu público alvo pudesse ser atingido por resquícios de sangue espirrado ao modo que Zé do Caixão costuma fazer. Felizmente, previsões receosas e infundadas. O que se passa por hora e meia na tela é digno do mais digno dos trabalhos dele – mais bem embalado, mais bem cuidado, mas visceral da mesma forma, agressivo da mesma maneira, "horrível" como sempre esperamos nós, fãs de sua obra.

O início do filme é espetacular e já empresta uma das mais bem filmadas e atuadas seqüências do cinema atual (o filme todo tem, no mínimo, mais três seqüências simplesmente antológicas, como a que acontece com Zé Celso Martinez, numa espécie de limbo, o purgatório, onde existem "céu em cima e um inferno abaixo" - portanto, a se perceber que nunca há uma tentativa de subversão das coisas idealizadas e secularizadas pelos "medos" ou temores humanos na obra dele, e isso se revela por pequenos detalhes como esse anterior, o que reflete o quão "popular" deve ser o alcance de suas obras, e o quão pretensioso é imaginar serem feitas elas para deleite de uns "poucos" e adoradores apreciadores – em que corpos são comidos e dilacerados, ou quase ao final, com um tremendamente bom momento de necrofilia, ou em mais alguns outros; com certeza mais de três seqüências memoráveis), onde estão policiais amedrontados, num corredor dentro de um presídio, aguardando o momento da soltura do personagem principal – recluso há quatro décadas -, sendo conduzidos, na marra, por um também amedrontado (mas fazendo pose de durão, vomitando palavrões e imprecações contra seu comandante, através de um telefone celular) Luís Mello (em interpretação pequeníssima e magistral). Todo o pequeno e acanhado espaço fisco do corredor que levará à cela, acaba compondo um cenário bem delineado pelo "esquadrinhamento" que as câmeras buscam concretizar - e que conseguem: muito pela iluminação e pela decupagem obtida na edição - torna-se opressivo e assustador aquele caminho (claro e recheado de homens), também fruto da composição perfeita entre a atuação de Mello e o bom domínio fotográfico imaginado e concretizado para o momento. Marcante, e uma espécie de apresentação para o que virá a seguir.

Já no primeiro corte para a rua, percebe-se que haverá alternâncias entre um modo mais atual de filmar (uma excelência visual que acompanhará a obra até o último take) o personagem sessentista, e um modo muito mais seu (de José Mojica) de imaginar as imagens – passará a haver momentos óbvios de imagens mais elaboradas e outros de situações mais cruas e despojadas - não esquecendo jamais, e isso pode-se comprovar em alguns de seus filmes anteriores, que ele também sempre teve um grande domínio de utilização "estética" e de imaginação visual. E na rua passa-se a perceber o personagem bastante envelhecido – acompanhado por seu eterno e fiel serviçal, Bruno (Rui Rezende) –, que fará dessa passagem do tempo um dos motes do filme. Nesses primeiros instantes ao ar livre há a surpresa do velho e enclausurado homem ante a babárie urbana atual, que sensibiliza-se ante a imagem de crianças cheirando cola; e continua sensível às situações de exclusão social que nota no lugar onde vai para reiniciar a vida em liberdade - vi esse "entretrecho social" sendo bastante elogiado por algumas pessoas, mas se tivesse que optar, na marra, por algo um tanto fora do contexto, uma possível coisa a ser questionada, me referiria justamente a isso: como não tenho, acabo aceitando esse particular como um meio de revelação da real índole de José Mojica Marins.

O personagem se mostrará mais medroso de seus fantasmas: como um velho quando tem medo do fim da vida; não será ágil em cenas que exigiriam ação, mas tudo isso sem receio e com humor assumido - humor que é outra característica da índole do diretor, e que é tremendamente bem utilizado no filme. Teremos um Josefel Zanatas mais presente durante a exibição. O contraste dessa passagem do tempo também fica bem nítido por conta da inserção maravilhosa de trechos (quase seqüências inteiras, por vezes) dos filmes antigos dele – e esse trabalho ganha, então, um up-grade diferenciador, que acaba remetendo-o do simplismo de categorização como ficção, para algo como "reverencial", "documental", "imprescindível carga de informações necessárias"... Aliás, na última "cena", há mais um grande momento gerado pela turma da "concepção atual do filme" – aquela do visual mais elaborado – que "espouca" na tela uma seqüência de vários momentos do rosto do personagem através dos tempos.

Como não poderia deixar de ser, uma das maiores lembranças recairá sempre sobre as cenas de horror, que nunca são leves: muito sangue, mutilações (vale lembrar que o autor resolveu – como se fosse mais uma de suas piadas – destruir alguns ícones de nosso cinema por escalpelamento, destrinchamento, cabeça cortada e pendurada - sem revelar quem e nem como, obviamente –, inclusive com filmagens de auto-flagelação autênticas, que só são possíveis nos tempos atuais (há esse modismo "bem-vindo" - para o que ele sempre executou no cinema - daqueles seres que fazem do corpo ferramentas de evidenciamento e divulgação de ideologias, com o custo da beleza e pureza das próprias peles, bichos (as cenas das baratas e das ratazanas são de arrepiar), ruídos muito bem utilizados para completar momentos de terror (há um instante em especial, em que uma mulher grita por Deus até atingir o fundo de nossos temores, ao que Zé do Caixão, sarcásticamente irônico, responde com um: "Deus não foi convidado para essa festa"), sexo sob chuva de sangue... O som do filme impressiona e exacerba o terror e horror da tela; o cuidado técnico na captação e edição dos ruídos, rivaliza fortemente com toda a estrutura técnica engendrada para a confecção do trabalho, no geral.

Mas há muito mais a ser apreciado. Como havia falado do humor, o filme é todo recheado dele (outra marca registrada) no mais alto nível; muitas falas beiram a genialidade (José Mojica é um grande dialoguista) - difícil controlar a vontade de relatar algumas delas, mas acho injusto fazê-lo. Os filmes de Zé do Caixão não se furtam e abusam das cenas de sexo: e o trabalho ameaça com algumas bastante picantes; há um monte de mulheres lindíssimas (outra marca registrada), mas Zé é absolutamente politicamente incorreto com elas – desde sempre -: bate, humilha-as, tortura-as, rebaixa-as à simples possibilidade de servirem para ele como procriadoras para um filho (o tal do filho perfeito) que sempre desejou. Soube de gente que, entre outros questionamentos sobre a validade da obra, questionou o modo de tratamento às personagens femininas, classificando-o como exacerbação misógina, e de politicamente incorreto - é mais ou menos como questionar a arte, querendo colocá-la sob vigilância social e impossibilitando-a como manifestação humana. Não dá para imaginar o personagem como o referendador da opinião do "homem" (josé Mojica) - seria como aceitar atos "talibânicos" contra estátuas idealizadas por quem professa outra fé, ou queimar livros e pinturas porque não falam somente da "boa" essência; seria como proibir a marchinha "Nega do Cabelo Duro", ou "A Cabeleira do Zezé" (não sei os títulos das músicas mas dá para perceber de quais falo). Há um personagem e suas reações. Isso dentro de um contexto absolutamente bem delineado. Isso dentro de uma arte chamada cinema. Se for para questionar algo que se faça sobre o filme: não sobre suas "mensagens".

Como obra cinematográfica é sim um grandesíssimo trabalho. A melhor volta possível. A ponto de, ainda hoje, após revisões, imaginar que cada questão aventada mereceria análises mais amplas. Vale lembrar, principalemente, para terminar por ora, a associação a Dennison Ramalho e a Paulo Sacramento (além de tudo, um dos maiores montadores atuais) – nunca imaginaria ninguém mais apropriado e competente para resgatar José Mojica Marins e seu personagem, Zé do Caixão, do limbo.

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