QUANDO ESTOU AMANDO:


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Original: Quand j’étais chanteur
País: França
Direção: Xavier Giannoli
Elenco: Gérard Depardieu, Cécile De France, Mathieu Amalric, Christine Citti, Patrick Pineau, Alain Chanone, Christophe, Jean-Pierre Gos.
Duração: 112 min.
Estréia: 01/08/2008
Ano: 2006


"Quando estou amando": História de amor entre fracassados se desgasta no esforço de evitar lugares comuns


Autor: Fernando Oriente

O ser humano fracassado em sentido existencial passou a ser figura dramática no mundo das artes a partir do final do século XIX e início do XX. Na literatura principalmente, mas com desdobramento no teatro e também nas artes plásticas, esse tipo de homem veio substituir o herói clássico e todo poderoso que fundou o imaginário da sociedade ocidental. O cinema logo colocou esse tipo de personalidade atormentada no centro de suas tramas.

Com a chegada da década de 1950 esse tipo de personagem atormentado ganhou cada vez mais importância e papel de destaque em todo o mundo. Ao longo das décadas seguintes, a fragilidade do indivíduo rivalizou com questões sócio-políticas como os principais temas de qualquer forma de arte mais séria. Desde o falsamente propagado “fim das ideologias” (no final dos anos 80), a indústria cultural e os responsáveis pelas decisões no mundo do consumo desenfreado fazem todo o possível para vender a idéia de que uma sociedade despolitizada é a melhor forma para a vida das pessoas e, com isso, facilitam os elementos que permitem o império do livre-mercado dar as cartas em todo o planeta. Com isso, os homens e mulheres derrotados e melancólicos são cada vez mais protagonistas nas discussões sobre a sociedade atual, em que aparecem deslocados, sem rumo e perdidos em uma busca por algo que alivie a angústia de viver sem horizontes.

Essa longa introdução nos traz a “Quando Estou Amando”, do cineasta Xavier Giannoli. O longa mostra o desenrolar de um amor condenado ao insucesso entre um cantor de terceira categoria com uma jovem amargurada e solitária. A intenção de Giannoli era compor um romance impossível entre duas pessoas fracassadas, incapazes de se entregar e presas em uma realidade que já não oferece oportunidades para que recuperem o tempo perdido e superem as dores existenciais que a vida lhes infringiu.

O diretor conta com as boas presenças no elenco de Gérard Depardieu e Cécile de France como o casal de protagonistas, mas, embora o filme tenha algumas qualidades, ele acaba se desgastando demais nas tentativas de evitar o lugar comum das histórias de amor. O clima existencialista de melancolia dos personagens atinge, quase sempre, um aspecto de artificialidade e as situações acabam escorregando para clichês ou excessos de sentimentalismos que, embora Giannoli tente disfarçar, ficam evidentes.

O início é o que de melhor “Quando Estou Amando” oferece. As cenas que mostram a figura medíocre do cantor interpretado por Depardieu (com suas roupas cafonas e seu visual melancolicamente brega) só e desanimado no camarim e, depois, os primeiros minutos de sua apresentação em uma boate decadente, com canções piegas que levam tipos solitários a uma triste pista de dança em busca de alívio e diversão para suas almas solitárias são compostas com talento visual e uma boa montagem. Também nos primeiros momentos vemos o que talvez seja a melhor passagem do longa. O primeiro diálogo entre ao casal de protagonistas é bem desenvolvido, as boas atuações e os ângulos de câmera, que intercalam os dois em campo e contra-campo com imagens do ambiente oferece boa oportunidade para a apresentação da complexidade de suas personalidades, bem como transparece seus anseios e receios.

Mas conforme o filme caminha, suas qualidades vão se diluindo. Algumas metáforas, como a comparação do cantor a um vulcão que volta à atividade, uma série de frases feitas (“Ela me despertou”, “Canto para mim mesmo”) e alusões rasas à crise do envelhecimento, bem como a trilha sonora excessivamente piegas, jogam o longa na vala do lugar comum que tanto o diretor esforça-se para evitar. Outra opção equivocada do filme é deu desfecho, quando na última cena antes dos créditos, o cineasta deixa uma sensação dúbia de uma possível solução conciliadora que contradiz toda a aparente proposta de “Quando Estou Amando”.

A discussão sobre a fragilidade do homem no mundo de hoje já rendeu alguns dos melhores filmes da história recente do cinema. Temas como a incomunicabilidade e a melancolia, o desespero da falta de crenças, a incapacidade de se relacionar e a falência das ideologias na sociedade do consumo foram temas muito bem explorados, de Antonioni à Tsai Ming Liang, passando por Godard e Bergman até Philippe Garrel e Claire Dennis. Infelizmente esse não é o caso de Xavier Giannoli e seu “Quando Estou Amando”

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