ERA UMA VEZ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Breno Silveira
Elenco: Vitória Frate, Thiago Martins, Paulo César Grande, Rocco Pitanga
Duração: 118 min.
Estréia: 25/08/2008
Ano: 2008


"Era uma Vez..." - talvez muito bom. Talvez caricato.


Autor: Cid Nader

Breno Silveira parece ter resolvido filmar uma daquelas histórias de romance, no qual o casal sente a impossibilidade da concretização amorosa entre si por conta das diferenças sociais - isso, nos tempos atuais, e no Rio de Janeiro. O filme que resultou vem carregado de complicações na maneira correta de interpretá-lo. No início, percebemos um Breno revelando a cidade maravilhosa como a maior fatia de importância dentro do trabalho. Filma-a de maneira espetacular, com aproximação cuidadosa em detalhes de caráter mais intimista - trechos das praia, mar revolto, trailer de comida: locais de convívio e também que permitem isolamento. Quando resolve que é hora de revelar a cidade de modo mais grandioso e ostensivo, utiliza tomadas de helicóptero ou focos amplos à distância: daí passa-se a freqüentar a favela (há uma tomada feita de cima com resultado raramente visto), ou a se notar a ostentação dos prédios de alto padrão à beira da praia - nesses casos, o ajuntamento humano é mais freqüente e a intimidade do jovem casal que inicia uma aproximação (Dé, pobre, da favela, vendedor de cachorro no quiosque, interpretado por Thiago Martins; Nina, interpretada por Vitória Frate, classe média alta de Ipanema) ganha vizinhança mais populosa e cobranças.

Enquanto a primeira metade do filme transcorre, aliada às opções estéticas que privilegiam a exuberância e os contratastes locais, o que se nota é um filme recheado de momentos ternos - alguns muitíssimo bonitos -, onde um amor "impossível" tenta florescer, com clima quase "fabulesco". Presenciamos nesses momentos um trabalho bonito, que beira a pieguice, mas se sustenta pelo tom alcançado. Alguns indícios de estranheza pipocam nesse trecho da obra - algumas câmeras lentas em momento de violência, por exemplo - o que faz perceber que idéias estranhas e opções técnicas esquisitas poderão passar a colocar o trabalho em dúvida.

Aí, como numa divisão exata de ambientes e da película, o filme começa a ganhar um peso estranho, enquanto o jovem casal passa a receber uma espécie de carga à Romeu e Julieta. Quando o pai dela e a mãe dele começam a perceber as diferenças sociais, questões novas são aventadas e um "não futuro possível" passa a ser incorporado, imprimindo mais "peso". Nessa nova fase, onde as diferenças passam a gerir opções, o filme parece querer nos colocar à prova, e elementos de aparência superficial constrangedora passam a incomodar quem não quiser ter paciência para tentar enxergar possibilidades de interpretações via chaves mais elaboradas de compreensão. As situações que passam a suceder - seqüestro, mortes, polícias safadas, bandidos caricatos, pai desesperado e ameaçando separação do jovem casal (na realidade uma bela interpretação de Paulo Cesar Grande), mãe desconfiada que reage extremadamente quando do ressurgimento de um outro filho, perseguições, reações impensáveis de quem executará violências e de quem as sofrerá - fogem do padrão comum e desejado, extrapolando no tom utilizado e criando barreiras para sua aceitação.

A partir dessas opções adotadas na "segunda metade" do filme, ficam dúvidas importantes para uma avaliação final das intenções de Breno Silveira. Se pensados esses momentos com olhar estético e rigoroso na compreensão das idéias - se a interpretação da "letra escrita" for a de "preto no branco", sem jogo de cintura, a conclusão será a de que o diretor ainda tem idéias infantis como seus motes. Se o caso for o de pensar na impossibilidade das reações mais contundentes - um pano na cara, tiro,corpo atingido, reação e mais outro corpo atingido - como fruto de razoabilidade comportamental; se a idéia levar a pensar nos acontecimentos decisivos gestados a partir de uma falta de melhor futuro como melhor opção; se remetermos o caso a similaridades atitudes às de fatos ocorridos nas letras do mais famoso escritor (um bardo) inglês, pode ser que tenhamos assistido um filme que era belo (visualmente) no início, e que terminou, também, belo: amparado por metáforas. Ainda estou em dúvida.

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