NOME PRÓPRIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Murilo Salles
Elenco: Leandra Leal, Juliano Cazarré, Milhem Cortaz, Rosane Holland
Duração: 120 min.
Estréia: 18/07/2008
Ano: 2007


Do fundo do poço, à espera de amparo


Autor: Cid Nader

Há o fenômeno da interferência na tela com palavras escritas como algo até recorrente num cinema mais provocativo nos dias de hoje. Tem se visto isso. Murilo Salles usa muito isso em "Nome Próprio". Recita pensamentos da personagem principal - Camila (Leandra Leal) -, escritos que ela coloca em seu blog, suas vivências. A arte escrita do filme é praticamente toda repassada para paredes, portas, fundos inertes que acabam por ganhar ares de elemento vivos na película. Essa é um das características de invenção, surpreendente, que fazem esse trabalho do diretor - não caracterizado como autor que tenta linguagens ousadas ou periféricas na extensão de sua carreira - ganhar importância de obra a ser conferida por quem preza o bom cinema.

Baseado em textos e livros de Clarah Averbuck (uma jovem escritora gaúcha), que atualmente edita um blog tremendamente conhecido, o filme entra nos tempos atuais, tirando o diretor de uma espécie de ranço acomodado e levando a empreitada a configurar-se como um exemplo de “atualidade” que vi recentemente. Dialoga com a Internet, com a necessidade dessa comunicação instantânea, aproveitando o ensejo de cenário recente para colocar-se par-a-par com a modernidade. A fonte em que bebe é a da urgência, da velocidade, o que faz lembrar um pouco também que esses tempos recentes são formadores de seres com comportamento um tanto "comprometido". Camila é um desses seres e Leandra Leal cria sua caracterização com uma “visceralidade” tremendamente boa.

O filme é visceral desde seu início e Salles - ao contrário do que sempre suporia - se aproveita da oportunidade para construir um trabalho rasgadamente buscador. Busca os extremos com a composição de seus personagens, se dá muito bem por conta da disposição empreendida por Leandra Leal. Busca os extremos da sensualidade e cria momentos de desejo, consumação, entrega e provocação. As cenas de envolvimento sexual são bem boas, carregadas de imagens que tentam o olhar, o desejo de ver mais, sem muito medo, sem glamurização desnecessária - algumas delas são de beleza plástica irrepreensível -: a da transa à beira-mar, tomada de cima, por exemplo. Busca os extremos no comportamento de quem se entrega por tudo e por nada, e mergulha na bebida como o escape à mão, como o que possibilitará a "reação" - que quase sempre é violenta, pune o outro e se pune, se agride (quando ela resolve, num acesso, limpar o apartamento do amigo, a evidente conclusão da "explosão" só poderia respingar em sua própria saúde física, numa lógica de conseqüências que alguém minimamente mais atento estará propenso a perceber).

Camila sofre, se entrega via corpo, se entrega via pensamentos (afinal, se revela no blog. Coisa mais sintomática do que essa muleta moderna?). O filme não nega isso e todo o seu modo de composição bebe disso. Sei que alguns dirão que o diretor glamurizou, dourou a pílula e fez um filme de imagens. Em alguns momentos até resta essa impressão. Mas agora, quando escrevo, sinto sinceridade na proposta, desejo de fugir do fácil, do investimento certo. Agora, nesse instante, relembro ter visto obra forte nas imagens, importante nas buscas estéticas e correta na explicitação da alma humana - que pune, quer ser punida, mas que no fundo está sempre à procura do amparo. Camila é um ser humano, simplesmente.

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