BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS:


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Original: The Dark Knight
País: EUA
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Michael Caine
Duração: 152 min.
Estréia: 18/07/2008
Ano: 2008


Batman retorna em festival de exageros de Christopher Nolan


Autor: Fernando Oriente

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” traz de volta uma pergunta que há anos acompanha os espectadores mais atentos: Por que a indústria hollywoodiana vê no exagero visual e na opção pela catarse grosseira dos sentidos uma forma infalível de lotar as salas de cinema mundo afora? É de se estranhar a quantidade absurda de dinheiros que os grandes estúdios gastam para fazer filmes em que não há um único minuto sequer para que o público pense ou mesmo respire com calma durante a montanha russa visual e barulhenta dos blockbusters que produzem.

O novo filme de Batman é uma ode ao exagero. Do começo ao fim nos deparamos com seqüências dirigidas com mão pesada por Nolan, em que o excesso de elementos no quadro e a velocidade dos planos atrapalha qualquer tentativa de absorção mais complexa das ações do longa. A edição é afobada e a construção dos planos é extremamente apressada. A opção do roteiro de contar muitas histórias e apresentar um número exagerado de figuras dramáticas torna o filme chato de ser acompanhado e anula todo o potencial dramático dos personagens.

Um detalhe dessa brutal agressão aos sentidos pode ser verificado no visual do Batmovel. O que já foi um veículo charmoso, de design futurista e sofisticado, virou, nas mãos da equipe de Nolan, um tanque de guerra feio e desprovido de qualquer charme. Outro aspecto grosseiro do filme é a voz empostada que o herói assume quando veste seu traje de combate ao crime, um recurso que chega muito próximo do ridículo.

Até o caráter sombrio e psicótico de Batman (características que o tornam um dos mais interessantes e complexos personagens do universo dos quadrinhos) é deixado de lado na maior parte do filme, retornando apenas na interessante opção final do longa, que acentua o aspecto problemático da psique do herói e abre boas oportunidades para a próxima seqüência da franquia. Na primeira metade de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” existem muitas cenas diurnas, o que não combina com o vingador mascarado e seus inimigos. Na primeira aparição do herói, a fotografia é muito “clean” e as imagens claras demais. São elementos como esses que diluem o aspecto soturno do justiceiro de Gothan e diminuem o potencial estético da obra.

É inevitável não compararmos esse filme aos dois longas que Tim Burton dirigiu sobre o personagem. “Bataman” (1989) e “Batman - O Retorno” (1992) eram filmes em que o talento de Burton desenvolvia com densidade as múltiplas texturas dos tipos que punha na tela. Com diálogos cheios de duplo sentido e cenas dirigidas com apuro visual, os trabalhos de Burton revitalizavam as possibilidades dramáticas dos heróis e vilões e serviam como sofisticadas metáforas para os tormentos da alma humana.

Entre os inúmeros problemas de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” está a insuportável personagem Rachel. Vivida por Maggie Gyllenhaal (que assume o papel que foi de Katie Holmes no filme anterior) a “mocinha” da história é fruto de um vício machista do cinema americano, que insiste em desenvolver personagens femininos que convém como interesse amoroso para os homens da trama, que não tem a menor estrutura dramática e servem apenas para criar falsas situações de tensão. Além de ser uma figura rasa e chata, desprovida totalmente de carisma, a moça passa longe de ser bonita, o que torna sua presença ainda mais difícil de ser aturada.

Talvez a maior qualidade do filme, entre poucas, seja o Coringa de Heath Ledger. Independente da agressiva campanha de marketing do estúdio para que o a ator, morto no início do ano, ganhe um Oscar póstumo por sua atuação no longa, o trabalho de Ledger é impressionante. Ele cria um Coringa diferente de tudo o que já foi visto antes, no sentido oposto à também ótima criação de Jack Nicholson para o personagem no primeiro filme de Tim Burton. Seu vilão é, ao mesmo tempo, cruel e masoquista, e sua presença marcante e perturbadora garante as melhores seqüências de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”.

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