CAÓTICA ANA:


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Original: Caótica Ana
País: Espanha
Direção: Julio Medem
Elenco: Manuela Vellés, Bebe, Charlotte Rampling, Asier Newman, Nicolas Cazalé
Duração: 118 min.
Estréia: 11/07/2008
Ano: 2007


Faltou caos


Autor: Érico Fuks

Do ponto de vista estético, Julio Medem é um mestre. Difícil ficar indiferente a uma fotografia sensivelmente carregada nas cores e nos contrastes, com nuances simetricamente apresentadas. O mundo, matematicamente perfeito nas formas, compensa a falta de uma razão lógica cartesiana para facilitar o entendimento dos dilemas psicológicos de seus habitantes. Em seus primeiros trabalhos mais experimentais (e mais ousados), como por exemplo “Vacas” e “Terra”, era nítida sua relação mais próxima com a natureza desabitada e seus animais isoladamente colocados neste espaço. Medem se mostra um apaixonado por esse bucolismo ermo quase surreal. Já em “Os Amantes do Círculo Polar” e “Lúcia e o Sexo”, manteve seu naturalismo orgânico e acrescentou o elemento feminino como fio condutor psicológico de uma história de vida igualmente incompreensível.

Aqui em “Caótica Ana”, como se faz supor, o elemento protagônico é também a figura venusiana inserida num tabuleiro impressionista conturbado, inquieto. As marcas registradas do diretor compõem esse cenário límpido nas formas e embaçado em seu conteúdo mais pragmático. De igual beleza aos anteriores, a densidade fotográfica é marcante, visceral. O diretor dá volume, cores e sons ao seu universo estrutural. Câmeras altas mostrando a imensidão dos vales humanos que ecoam a falta de um sentido para sua existência, bem como câmeras baixas submersas tentando acompanhar o movimento calmo das ondas em sua superfície, são quase um cacoete do espanhol. Medem não se pretende colocar acima do seu mundo, com a arrogância e onisciência de todas as respostas possíveis, mas também não se curva passivamente ao livre-deixar das coisas. Nesse sentido, sua fotografia em iguais distanciamentos do objeto, porém em direções diametralmente opostas, reforça ainda mais esse poder dúbio de interferir ou não em sua tese minuciosamente bela e granulada.

A questão é que, no mundo caótico de Ana, o diretor não se contenta em se submeter ao livre estado natural das coisas. Não é mais o planeta protozoário e divino que rege suas pessoas. Aqui o universo não é mais tão-somente um arranjo arquitetônico babilônico, mas sim uma somatória de valores que busca explicações mais transcendentais e um contato mais profundo com o inconsciente. A contagem regressiva de 10 a 0 ganha duplo significado. É o espaço necessário para a Afrodite seminua protagônica entrar num estado hipnótico e trazer elementos de seu passado e de suas encarnações anteriores. É também o mecanismo que rege a história contada, como se fosse o índice de capítulos cada vez mais próximos ao seu final. Em suma, Medem encaretou. Procurou trazer a exatidão da Matemática como respaldo para se sustentar naquilo que, em sua ausência, ele costumava fazer tão bem. Se a firmeza e o rigor em retratar o espaço são os destaques, já não se pode dizer o mesmo no tratamento que o diretor dá aos personagens, tão frágeis quanto desnecessários. E, à medida que as explicações aparecem, o resultado dessa viagem em torno de si mesma vai se tornando proporcionalmente de menor impacto. A cena do magnata norte-americano, ruim e mal-filmada, destoa completamente da exuberância onírica que marca o trabalho do diretor. Faltou um pouco mais de caos a esse exercício numérico.

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