O SEGREDO DO GRÃO:


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Original: La graine et le mulet
País: França
Direção: Abdel Kechiche
Elenco: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache, Abdelhamid Aktouche, Bouraouïa Marzouk
Duração: 151 min.
Estréia: 11/07/2008
Ano: 2007


"O Segredo do Grão " - o legado.


Autor: Fernando Watanabe

O último plano do filme mostra Slimane no chão, caído após correr durante muito tempo atrás de sua motocicleta que acabara de ser furtada por um bando de garotos. Obviamente, dentro da lógica hiper realista do filme, um homem de sua idade - - e que já possui a saúde muito debilitada - dificilmente alcançaria os garotos e recuperaria sua moto, a não ser que um milagre ocorresse. O milagre não chega, e Slimane termina por ir ao chão.

A cena final, no entanto, não possui significado direto, da situação mostrada em si (Slimane tentando recuperar sua moto e falhando ao final). Ela metaforiza todo o percurso do protagonista durante o filme; poderíamos até chegar a dizer que ela metaforiza o filme inteiro, e mais, no limite, que essa cena simboliza a idéia na qual o filme se baseia. Que idéia é essa?

Esboçemos rapidamente a linha narrativa básica do filme. Um homem idoso perde seu emprego. Possui uma família inteira cujas complexas relações flertam mais com o caos do que com a ordem. Ele, patriarca dessa família, de uma hora para outra se vê na condição de dependente, aquele que necessita da ajuda de todos devido às suas dificuldades financeiras e de saúde. Seu projeto agora é abrir um restaurante, mas para isso precisa de avais burocráticos. Enfrentará a burocracia. Antes de sabermos se a empreitada dará certo, ele, fatigado, sofre a queda. Uma queda por estafa.

Poderíamos deduzir daí que o filme possui um comentário social muito evidente, aquele que versa sobre a situação trabalhista dos idosos na França, sobre o mercado capitalista aliado à burocracia do estado que, combinados, formam uma barreira quase instransponível para que um idoso desempregado alcance melhores condições de vida. Esse teor social não deixa de estar no filme, todavia, ele se concentra mais nas relações intersubjetivas existentes entre os personagens da família, nos pequenos dramas e intrigas que existem ali, entre quatro paredes. Para isso, opera um mergulho dentro do “cotidiano” dessa família, numa direção de atores realista que é observada por uma câmera despojada (que não prima pelo rigor da decupagem). A maior força do filme encontra-se justamente aí, na força cênica dos atores: eles gritam, sussurram, se agridem, se amam. Uma metralhadora verbal de extrema variedade, que passeia por todos os sentimentos possíveis de serem extraídos de diálogos humanos.

Como elemento central dessa teia de relações, o velho Slimane. Estafado pela enormidade de vidas que o cercam, e às quais nunca pôde ficar indiferente. Se ele morre ao final, por cansaço, não o faz sem antes deixar uma herança: o novo restaurante, projeto cuja idéia foi comprada pelo resto da família. Caberá aos que ficam lutar e dar continuidade ao sonho final do velho Slimane. Se terão sucesso nessa empreitada nunca saberemos. Então, o tema maior do filme é esse do legado, aquilo que uns deixam para os que ficam. Todos os projetos, as instituições, as famílias, os sonhos, tudo continua. Por eles passam as pessoas, umas cedendo lugar às outras. Os velhos dando lugar aos novos.

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