O Manuscrito Perdido

Por Cesar Zamberlan

O Manuscrito Perdido é uma carta filmada. Uma carta do diretor português José Barahona ao escritor angola José Eduardo Agualusa. A carta narra a busca do diretor pelo manuscrito perdido de Fradique Mendes ao qual Agualusa se refere no seu livro “Nação Crioula” e que estaria no Mosteiro Franciscano em Cairu, local próximo a Salvador. A ideia, portanto, anunciada por Barahona, neste que é o seu primeiro, filme é acompanhar essa busca, documentá-la, narrando, em “voice over”, seus desdobramentos em forma de carta a Agualusa.

Mas, do que se trata o tal manuscrito perdido? Nele, o português Fradique Mendes, segundo o diretor, fala sobre suas ideias abolicionistas, porque teria libertado os escravos que chegou temporariamente a manter numa fazenda na Bahia. Decisão que teria gerado a ira dos demais fazendeiros e ameaças de morte que o levaram a fugir dali para a ilha de Boipeba, de lá a Porto Seguro, de Porto Seguro ao Rio e do Rio finalmente para a Europa, deixando o manuscrito, prova de suas ideias bastante avançadas para a época, no meio do caminho, no Mosteiro em Cairu.

Mas ao refazer o trajeto até Cairu, o diretor descobre que o documento teria sido despachado para o Rio, ao Gabinete Real de Leitura, e o projeto do filme ganha novos e verdeiros contornos, pois Barahona resolve refazer o trajeto de Fradique Mendes e, neste trajeto, acaba por registrar, séculos depois, os desdobramentos da realidade que Fradique atestava no suposto manuscrito, ou seja, a relação entre as raças no Brasil e a forma como estes descendentes dos contemporâneos de Fradique lutam ainda hoje pelo seu espaço de terra.

Por força das contingências – e Barahona até fala destes percalços de filme e romance no início de sua carta/filme – a busca pelo manuscrito é então adiada e o filme adentra por outro tipo de exploração, num primeiro momento, mais sociológica até que histórica. Assim, do depoimento dos frades no mosteiro somos conduzidos à realidade dos quilombolas, à realidade dos descendentes de tribos indígenas que esperam a demarcação de suas terras, dos integrantes do MST também peças desta luta fundiária e uma outra tribo indígena que ainda que tenha suas terras demarcadas teme por uma estrada que vai cortar a região.

Colhendo depoimentos bastante interessantes e se posicionando com bastante sutileza Barahona acaba por construir um retrato interessante da questão fundiária na região de Porto Seguro, e deixa o tal manuscrito e seu autor de lado. Mas, de modo abrupto, mal resolvido, acaba chegando ao Rio e cortando o fluxo equilibrado do filme para acompanhar uma estranha presença indígena nas ruas e praias da cidade. A estranha sequencia é sucedida por uma visita ao local onde o documento está e a apreciação deste pelo diretor, e aí o segredo do filme se revela, mas se revela mal: haveria de fato um Fradique Mendes, além do personagem de Eça de Queiroz, “Correspondência de Fradique Mendes” e do já citado livro de Agualusa?

Eis a questão, até que ponto, estamos diante da realidade e da ficção, do documentário verdadeiro e do falso documentário? O que de fato é a matéria do filme? Boas discussões mal ajambradas num trabalho que não sabe desvelar-se quando passa a ser aquilo que não era. Uma pena, pois a ideia podia ser boa.
























  Ficha Técnica: 

O Manuscrito Perdido, de José Barahona – 2010 – Portugal/Brasil (81min.)





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