Palindromes

Em seu mais recente filme, “Doutores da Alegria”, Mara Mourão discorre longamente sobre um típico expediente dos palhaços: o de ressaltar e exagerar os defeitos e falhas do ser humano e assim mostrar e nos fazer rir de nossas próprias fragilidades e contradições. O diretor Todd Solondz (“Felicidade”, “Histórias Proibidas”) utiliza-se desse mesmo expediente em “Palindromes” de modo a traçar, com seu típico humor negro e cáustico, um retrato cruel da América profunda e suas hipocrisias.

O filme acompanha a trajetória de Aviva – uma Alice de Lewis Carroll às avessas, cujo maior desejo é tornar-se mãe – quando, forçada por seus pais a realizar um aborto, decide fugir de casa e por suas andanças cruza com os mais diversos tipos dessa América republicana e conservadora.

Embora num primeiro momento sua abordagem possa ser interessante e até mesmo engraçada, o diretor erra ao tornar seus personagens por demais estereotipados e grotescos. A crítica realizada pelo clown só funciona a medida que nos reconhecemos nele e identificamos nossas próprias falhas, algo que não acontece na relação do espectador com os retratados de Solondz. O filme desanda para um niilismo onde os personagens são condenados a nunca mudarem ou amadurecem (“Não importa o que façam, as pessoas sempre terminam como começam”, diz um dos personagens), o que de certo modo esteriliza e invalida o julgamento. Diante dessa crítica que não aponta saídas nem busca um debate, resta ao espectador questionar-se, juntamente com Aviva: “Mas não há esperança?”. Segundo o diretor Todd Solondz, não.

Leonardo Mecchi – Editor do site Enquadramento






















  Ficha Técnica:  Palindromes . EUA. 2004. Direção: Todd Solondz. Com: Ellen Barkin, Richard Masur, Matthew Faber Angela Pietropinto, Bill Buell, Emani Sledge. 100 minutos.





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