Brothers

Com “Brothers” , a diretora Susanne Bier realiza uma obra rara – um filme de guerra dirigido por uma mulher –, que resulta em um drama intimista e psicológico, e não na habitual exaltação do heroísmo e bravura que acaba de certo modo por enaltecer a guerra.

A história gira em torno de dois irmãos, cada um satisfeito em exercer seu papel: Michael (Ulrich Thomsen) o de bom filho, pai e marido e Jannik (Nikolaj Lie Kaas, conhecido do público brasileiro pelos filmes “Reconstrução” e “Corações Livres”, este último também sob a direção de Susanne Bier) o de ovelha negra. Tudo muda quando Michael é enviado para o Afeganistão, sofre um acidente em sua missão e é declarado morto. Prontamente Jannik endireita seu caráter e assume responsabilidades para com a esposa e filhas de seu irmão, adquirindo uma intimidade que por vezes enevoa os limites dessa afeição.

Embora contida e delicada ao retratar os conflitos de seus personagens, optando acertadamente por belas imagens e atuações precisas em detrimento dos habituais diálogos explicativos, a diretora peca por não construir um crescendo dramático que justifique o desenvolvimento dos personagens, seus dilemas e contradições. O filme não concede ao espectador o tempo necessário para simpatizar e se identificar com os personagens e seus dramas, mas apenas acumula rapidamente informações que fazem avançar a história, sem contudo permitir um envolvimento maior do espectador com aquilo que vê na tela.

Embora tenha optado pela chave correta no tratamento do tema a que se propôs (o impacto emocional e psicológico da guerra não apenas naqueles que a vivenciam, mas em todos os que entram em contato com suas conseqüências), a diretora parece ter se equivocado na fluidez e na dinâmica desse tratamento, desperdiçando dessa forma boas atuações (premiadas inclusive em San Sebastián) e uma história com potencial.


Leonardo Mecchi - Editor do site Enquadramento





A diretora Susanne Bier seguiu o Dogma em seu último filme, “Corações Livres” (2002). O filme tem suas qualidades, principalmente na atuação de impacto do elenco e na secura do texto. Mas, ainda assim, fica a impressão de ser um Lars Von Trier genérico, faltando a ela um pouco do sarcasmo inovativo que fez a marca do gênero.

Este seu novo trabalho, “Brothers”, tem muito de comum com o anterior citado. As relações familiares calcadas nas incertezas e nas tragédias são quase uma obsessão de Bier. Dois irmãos desempenham papéis opostos numa família. Jannick é o rebelde sem causa. Acaba de sair da cadeia por uma de suas encrencas. Michael, por sua vez, é casado, tem filhos, trabalha e cuida de sua família. Certo dia é convocado para uma missão militar no Afeganistão. Quando seu helicóptero desaparece, Michael é dado como morto e Jannick acha que é hora de tornar-se responsável pela mulher e os filhos do irmão.

“Brothers” é um filme consistente, suculento. A diretora trabalha bem a crueza das relações humanas, indo de um certo equilíbrio à progressiva degradação. Seu jeito dogmático opaco de filmar é coerente com o ritmo do texto. Bier esculpe os fracassos no útero fechado do campo psicológico, abrindo mão de maiores elucubrações sociais. Entra na Psicologia, mas não cai em psicologismos. Seus tons cromáticos sem vida declinam o retrato humano à condição quase animal.

Mesmo tendo o domínio das câmeras, falta à diretora uma certa maleabilidade consagrada pelos papas dinamarqueses mais conhecidos. Bier ainda é muito dura, sisuda. Se seus músculos não fossem tão retesados e seu olhar tão enrijecido, quem sabe conseguiria sair um pouco dessa realidade fractal machucada e partir para uma ácida festa de família.

Érico Fuks














  Ficha Técnica:  Brothers . Dinamarca. 2004. Direção: Susanne Bier. Com: Connie Nielsen, Ulrich Thomsen, Nikolaj Lie Kaas, Rebecca Logstrup. 110 minutos.





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