AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Por Cid Nader

O que é documentário? O que é ficção? Por que definirmos filmes por categorias? O que é o tal documentário com interferências ficcionais tão em voga hoje em dia? Pensando em classificações antigas e que necessitam ser pontuais: como poderia ser classificado "Aquele Querido Mês de Agosto"? Como pensar em objeto participante de revolução estética, vinda de Portugal (país que até exportado grandes obras e cineastas bastante respeitáveis,sim), e não do já estabelecido comboio de obras surgidas no extremo-oriente? Miguel Gomes (o diretor do filme) é nome a ser considerado para um panteão "diferenciado" já a partir deste trabalho - se pensarmos na obra, como algo oriundo da produtora Som e Fúria, talvez já se possa imaginar oi diretor como pertencente,no mínimo, a algum grupo mais seleto e distinto do que os que compões a normalidade -?

Questionamentos que talvez caibam como a mais ajustada das carapuças para esse trabalho de cinema vivo e espantosamente inteligente - dentro das mais singelas propostas. Se visto de "cima", após momentos gastos pensando nele, e dissecando-o por cortes profissionais de especialistas na técnica cinematográfica, toda a proposta estética e técnica do filme é realizada pelos mais simples procedimentos. Não há novidades nas ferramentas utilizadas, e as utilizadas não executam pirotecnias de captação ou de metamorfização na "mesa de edição". O filme é singelo na sua configuração estética e singelo na opção temática (se pensarmos nele como algo de opção temática única). Teria como tema partir em busca de imagens de eventos ocorridos durante o mês de agosto (mês de férias e rico no imaginário europeu, normalmente atormentado pelo frio do resto do ano), bastante vivido ao ar livre, com suas festas e suas participações grupais, e que exportam ao mundo uma imagem de Portugal singela e executora de infindáveis ritos ainda ancestrais. O trabalho começa como um documentário que busca essa singeleza comportamental, encontra o rescaldo familiar como maior anteparo de sustentação (meio que na contra-mão dos avanços sociais modernos) social, não dispensando o ato religioso como forte componente dessa sustentação e percebendo um viés "brega" (brega a olhos culturalizados ao modo mais ocidental possível) a mais da conta nas músicas e nos modelos de festas onde elas são executadas.

Estamos falando da vida campestre do país (na região do Arganil). País de histórica matiz de manutenção de sistemas e tradições, e de folclórico pendor ao purismo, à simploriedade de seu povo - especialmente esse das aldeias, que carrega ainda em si todas as tradições (nos comportamentos) e uma certa pureza (no modo de expressão individual). Esse primeiro "passeio" do filme, despeja na tela festas, sol, vinho, opiniões, histórias reais da região (há um monte de "heróis tortos"): a tela vai belamente e nostalgicamente se enchendo de pessoas e paisagens. Quando num dado momento se imagina até onde poderia se sustentar o trabalho (que prometia 150 minutos de exibição), há um "corte" drástico e imergimos numa história de cinema. Passa a dominar a tela uma história ficcional apropriadamente realizada como (possível) intenção inicial do trabalho. As ameças que ocorriam até então - duas garotas que pegam um papel anunciando a necessidade de casting local para um filme a ser realizado na região (Aquele Querido Mês de Agosto),por exemplo, e uma primeira intromissão ficcional em meio a um documentado jogo de malha) - se concretizam quase que secamente, e a ficção não imaginada pelo desavisado ganha seu momento.

Mas até onde é possível imaginar o trabalho por esse simples corte? Até onde é verdade imaginar que num primeiro mês de agosto as imagens de estudo e de campo (as imagens que serviriam como sustentáculo na pré-edição) eram somente para a base, e o que se filmaria no mês de agosto seguinte seria a ficção propriamente dita? Até onde pode-se acreditar no encantamento das descobertas (resultando na idéia da modificação e transformando o trabalho numa peça rara) por parte dos realizadores, e da não pré-concepção e inevitável ficcionalização agindo desde o início? Na realidade não importa certezas nesse instante. O que importa é que o que foi concretizado encanta pela idéia da divisão, tanto quanto encanta ao exibir as imagens da pureza e da simplicidade emanadas de um povo até bastante preconceituoso, mas que pensa os pensamentos básicos e manifesta o desejo pela vida simples. O cruzamento das realizações resultou numa peça que já seria rara como "antropológica", e se tornou "rara potencializada" pelo todo. Talvez seja filme mais para ser visto e ouvido do que falado e dissecado por análises, porque fala direto à alma e ao senso artístico que carregamos.

Agora, notar a figura ímpar de Vasco Pimentel (diretor de som) - com seu microfone peludo no primeiro momento em que se ameaça a divisão do trabalho (no jogo de malhas quando as garotas aparecem querendo saber dos testes para elenco), e o diálogo "absolutamente genial" com o diretor no momento em que os créditos finais começam a apresentar (de modo bastante particular, inclusive) a equipe do filme -, é notar um "personagem" que pode virar até mitológico no mundo do cinema atual: de tão inacreditáveis seus argumentos, tanto quanto pela sua bela expressão singela (como se fosse a imagem profissional, do povo retratado pelas festas e pelo gosto pelo vinho).


Sessões

O filme ainda será exibido na sessão 575, no dia 23/10 - quinta-feira - às 16:30 na Cinemateca - sala Petrobras - e na sessão 1080, dia 29/10 - quarta-feira - às 17:50 no Unibanco Arteplex 4.
























  Ficha Técnica: AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes (2008) Portugal (34) (23/10)





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