Que Pasa Despues de la Coca?

Numa época pós-globalização, muitas forças mundiais estão procurando restabelecer fronteiras, no sentido de se garantir a prosperidade econômica e de se preservar a identidade cultural. Esse manifesto panfletário, com reivindicações as mais legítimas possíveis, traduz-se nas rampas das forças políticas do Congresso ou mesmo por meio de pincéis artísticos, por exemplo, diante das telas. “Que Pasa Despues de la Coca”, documentário de Roberto Lanza, encaixa-se na segunda categoria. Toma partido das 70 mil famílias bolivianas que dependem exclusivamente do cultivo da ancestral folha da coca para seu sustento, garantindo o conservadorismo de assegurar as tradições religiosas, médicas e sociais. A prática é considerada ilegal há doze anos, e os Estados Unidos monitoram a aplicação da lei exercendo pressão econômica e militar. O governo boliviano militarizou a zona de Chapare e deu início a um plano de erradicação das plantações pela força, após falhar no plano de desenvolvimento alternativo que tentou substituir a coca por outros produtos agrícolas. Os incentivos para diversificar a colheita, embora prometidos, nunca foram aplicados, o que provocou um estopim de guerrilhas e inchaço dos preconceitos sociais. O começo do filme apóia-se em afirmações didáticas sobre referências conhecidas. Depoimentos chamando a atenção para a diferenciação entre o extrato da folha de coca e a cocaína refinada não são novidade pra ninguém. O alerta que se prega para que traficantes e agricultores não sejam tratados como farinha do mesmo saco mais sacode do que comove. À medida que o filme avança surgem dados mais consistentes, como se o espectador adentrasse o nível intermediário de seu curso rápido sobre colonização. Trata-se de um embasamento recheado de estatísticas, que mantém suas diretrizes ideológicas e seu trajeto lingüístico do início. A explanação conservadora das teorias do documentário, entretanto, perdem-se em arriscados enxertos formais. Lanza parece que se confundiu sobre a essência do trabalho de um cineasta e de um DJ. Palavras-chave repetidas em tom de scratch parecem ter saído das pistas de casas noturnas. Reforçam a importância que o autor dá para seu significado, entretanto, diluem sua força própria vernacular quando miscigenadas a enfeites estilísticos. Imagens em desenho sobrepostas ao registro documental, alterações de fidelidade cromática, exercícios metalingüísticos aglutinados dizem mais das intenções do que das imagens, deixando o filme mais parecido com um anuário de Propaganda do que com uma película combatente à indústria imperalista do refrigerante mais vendido no mundo.

Érico Fuks




















  Ficha Técnica: 

Que Pasa Despues de la Coca? de Roberto Lanza. Bolívia -2006. Documentário. 84 min.





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