O Acidente

A captação e a finalização de imagens em formato digital significa, em primeira instância, a democratização dos meios, sem maiores relações com seus fins. A mobilidade de se conduzir um equipamento relativamente barato vem “facilitando a vida” de cineastas que não recebem apoios institucionais nem patrocínios. Muitas vezes essa autonomia artística, que briga pelos mesmos espaços consolidados pelo cinemão e invade o circuito pelas beiradas, aliada ao dinamismo cênico e à pressa de coleta de informações, faz parecer que o método digital esteja diretamente associado à precariedade e ao desleixo estético. Não é o que ocorre em “Acidente”, longa co-dirigido por Cao Guimarães e Pablo Lobato, ambos com currículo embasado em formação cinematográfica e vivência em novos formatos e projetos experimentais. Aqui a relação que se estabelece entre vídeo e película é muito mais próxima do que boa parte das produções marginalizadas atuais. Existe uma preocupação de se manter tonalidades cromáticas, profundidade de campos, contornos e contrastes de objetos, ritmos cênicos e uma série de preciosismos detalhísticos que, via de regra, são ignorados em prol de um cinema mais “verdade”. O filme busca captar instantes de pessoas comuns, cidadãos invisíveis, que não têm entre si nenhuma relação. São células do Século XXI, oriundas de cidades diferentes, com atividades e profissões diferentes, cujo único denominador comum é o fato de serem brasileiros. É um movimento simultâneo de aproximação e distanciamento aos eventos que surgem acidentalmente diante da câmera. É documentário, registra o cotidiano por meio de um instante aleatório da vida de cada um destes brasileiros, mas há nele uma vontade intrínseca de também se afastar da crueza dos solos pobres e romancear essas vidas secas com um tratamento mais canoro de imagens.

Embora essa poetização traga resultados mais, digamos, artísticos, “Acidente” exagera um pouco no tom de seus versos. O fio condutor dessa captação real é um poema composto por vinte nomes de cidades de Minas Gerais. O problema é que, ao contrario dessa busca randômica por um povo esquecido, a camada literária é totalmente pensada e planejada. Foram escolhidos minúsculos municípios fora do mapa com identidades calcadas em substantivos do dicionário. Assim, o resultado do filme torna-se menos acidental e ganha uma comicidade desnecessária quando não equivocada. Todo o lirismo estético rompe-se com a inserção de um texto que mais parece poesia concreta. Tem-se a impressão de que o roteiro foi escrito pelo Décio Pignatari. A transcrição desses nomes urbanos, que se repete a intervalos constantes, não só ofusca a força dos depoentes como também redunda uma proposta que busca a concisão e não as hipérboles acidentais.

Érico Fuks




















  Ficha Técnica: 

O Acidente de Cao Guimarães, Pablo Lobato. Brasil - 2006. 72 min.





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