El Viento

As peças que a Mostra nos prega. Ansioso para assistir “Nuvens Carregadas”, do grande diretor taiwanês Tsai Ming-Liang, chego ao CineSesc com uma hora de antecedência para descobrir que o filme havia ficado retido na alfândega devido à greve dos funcionários da Receita Federal e seria substituído por um documentário mexicano (“De Ninguém”, de Tin Dirdamal) cuja temática, naquele momento, não me interessava em absoluto, seja pelo estado de espírito em que tinha me colocado para o filme originalmente programado quanto pela quantidade de filmes que já tinha visto sobre o assunto (a vida e as dificuldades daqueles que tentam atravessar a fronteira entre o México e os EUA e o que encontram do outro lado).

Corro para tentar pegar um outro filme no mesmo horário – no caso, o argentino “El Viento” no Cine Bombril – que a priori já sai em desvantagem, por ter sido escolhido sob o estigma da frustração. O quanto minha percepção do filme foi influenciada pelas circunstâncias é difícil dizer, mas o fato é que em nenhum momento me prendeu o interesse e assim que saí do cinema achei melhor escrever sobre ele, antes que evanescesse de minha memória.

“El Viento” é o mais recente filme de Eduardo Mignogna, diretor do recentemente exibido no Brasil “Cleópatra”. Conta a história de um avô (Frank, interpretado pelo onipresente Federico Luppi) e sua neta (Alina, personagem da atriz Antonella Costa), que tentam se reaproximar após a morte da mãe desta e filha daquele. Frank é um camponês a moda antiga, que nunca havia saído de sua cidade na Patagônia até ir a Buenos Aires atrás de sua neta, o que motiva uma série de momentos cômicos ao longo do filme de resultados duvidosos. Alina é uma jovem que vive uma permanente crise existencial, que se inicia no fato de não saber quem foi seu pai e deságua em seu sentimento dividido entre o jovem namorado e um caso com seu chefe casado.

Buscando um pequeno drama familiar, Mignogna escorrega para um sentimentalismo muitas vezes barato (do qual o subplot sobre a criança baleada em um assalto e que vai parar sob os cuidados de Alina é o melhor exemplo), o que faz com seu filme apenas passe pela nossa memória sem deixar marcas, como leves nuvens levadas pelo vento.

Leonardo Mecchi – Editor do site Enquadramento





Se você é daqueles que se sentem atraídos pelo cinema argentino por causa de filmes sobre pequenas trapaças ou casamento esclerosado na terceira idade, esqueça. Existe uma nova leva de películas dessa ilha austral com cara de Europa que mexe com a tentativa de uma população idosa repensar suas vidas na migração pelo tempo e espaço. Este diretor de “Cleópatra” e “Sol de Outono” traz o arroz-de-festa Federico Luppi no papel de Frank, que resolve ir pra Buenos Aires reencontrar sua neta Alina pra ativar um laço afetivo perdido. A causa dessa reconciliação é a morte da filha de Frank, ou seja, mãe de Alina.

A temperatura de “El Viento” tá mais pra Suíça do que pra Porto Seguro. É um filme seco, conciso, que concentra suas forças na expressividade dos olhares e nas rugas dos protagonistas. Beira adicionar partículas de desmoronamento familiar, mas não chega a tanto. Econômico nas trilhas sonoras, começa duro no seu retrato e tenso na sua forma, mas aos poucos vai se acostumando ao ambiente e se soltando.

O filme ao mesmo tempo atinge e foge dos relacionamentos. O registro da câmera na maior parte mostra pessoas juntas, agrupadas, mas que não se tocam. Essa distância em milímetros dos corpos e ao mesmo tempo imensa nas suas afinidades é o ponto onde se instala boa parte da intensidade dramática da película.

“El Viento” fala de vida e morte o tempo todo. Alina trabalha num hospital em que, num momento, ajuda o trabalho de parto e, em outro, faz o relatório de óbito do paciente. È a alternância dos extremos num mesmo espaço. Frank lamenta a perda da filha mas também descreve minuciosamente o nascimento de uma ovelha. Trata-se de uma súmula mais naturalista do indivíduo, que fica no meio termo entre mergulhar de cabeça nas desgraças ou afastar-se delas com olhar gélido e distanciado. O detalhe do som do vento ao fundo em alguns momentos, que não chega a ser forte como em Lucrecia Martel mas está ali, mostra não só a instabilidade das relações, mas também a falta de coragem de “El Viento” tomar partido. De qualquer maneira, é um trabalho mediano que sobrevive às críticas, superior à estiagem retratada em muitos congêneres.

Érico Fuks














  Ficha Técnica:  El Viento . Argentina/Espanha. 2005. Direção: Eduardo Mignogna. Com: Federico Luppi, Antonella Costa,Pablo Cedròn, Esteban Meloni, Mariana Brisky. 100 minutos.





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