Estopô Balaio:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cristiano Burlan
Elenco: Documentário
Duração: 78 min.
Estréia: 16/03/2017
Ano: 2016


Se a ideia é falar de gente.


Autor: Cid Nader

Vamos falar de gente. Falar dos que vemos de longe sem entendermos suas razões para querer continuar a viver, mesmo quando o mundo não lhes oferece dignidade. Vamos falar de emoção: dessas que brotam das pessoas que poderiam ser “somente” desvalidas, lamentosas pelo destino madrasto, como muitas daquelas que fogem das misérias nordestinas para se verem isoladas nos cantões mal cuidados de uma cidade grande (São Paulo, por exemplo), mas que reagem apegando-se a diversas belezas para tal. Vamos dizer de como é lindo esse ser humano que se preocupa, que se oferece, que observa e cresce com o mais frágil, olha e sabe que aprenderá mais do que ensinará: mesmo que, pró-forma, arrogue o papel de que será o que o conduzirá para fora do nada, da miséria, das não chances.

Vamos pensar em trechos urbanos que só sufocariam (pode ser por enchentes que mantém casas, calçadas e forças/tenacidades afogadas por semanas, sem que algo mais concreto e urgente seja acelerado por quem teria de servir ao ser/cidadão), mas que resultam, no final das contas do terço, obstáculos que superados revelam pessoas fortalecidas, mais musculosas na determinação. Sentirmo-nos penalizados achando que se contatarmos tais seres sairemos soterrados por lamentos e penúrias, por choros frágeis, por pedido de pão, mas quando tomada a atitude corajosa do encontro, reparar que com o “circo” eles serão os seres mais lindos e emocionantes que a espécie consegue produzir (isso acontece, creiam – isso da beleza humana –, mais do que nosso ceticismo quer crer).

Assim: pensar em entrar num bairro do extremo leste de São Paulo (sim, era de São Paulo que falava), que por alguns anos sofreu inundação vinda dos locais mais podres do Rio Tietê (águas que não baixavam porque o bairro, Jardim Romano - e cercanias - fica abaixo do leito), capturar o drama no instante dos dilúvios (até com filmagens dos próprios) e perceber que num período de seca extensa é só de périplos que se vive por ali; pensar em falar com essas pessoas, sem apiedamento bobo, para realmente ouvi-las (emotividade exagerada ensurdece), entender que elas cobram pouco, e que no que concerne a quem as busca, o que for entregue/trocado/bolado será bem-aceito, seja da atividade que for o “benemérito” de alma justa; entender definitivamente que suas riquezas ancestrais os fazem curiosos diante do que o ser humano produz de mais belo – a arte -, e que isso é coisa que se pode tentar, já que quem as buscou, nesse caso, é alguém envolvido com as artes, e pra completar, tão sofrido quanto elas.

Mas... vamos lá novamente. Quem possibilita às pessoas a chance de se perceberem mais plenas pela arte é um diretor de teatro, vindo do nordeste como muitas delas (a região tem a maior concentração de nordestinos da cidade); passa a existir o Coletivo Estopô Balaio; e outro que se interessa é Cristiano Burlan, de vida dura, também, sempre muito atento a esses das periferias... Há ali entre eles a atriz de teatro Ana Carolina Marinho, outra tão ligada ao mundo de verdade.

Bem: estar diante desse doc retira automaticamente todo e qualquer sentido crítico acusador a possíveis problemas que tenha (que até estão lá, mas tão recompensados na contrapartida, que me permito como raramente faço – ou nunca fiz – esquecer), pois estamos diante de algo que não é “só” cinema. O que todos conseguem nele (todos: do diretor de cinema, ao diretor de teatro; dos cantores, das vizinhas, às crianças; da paisagem estranha de um rio degradado sendo belamente explorada, ao cachorrinho na sua casinha) extrapola para aos picos humanos, e por tal, é mais arte do que nunca (a arte, isso que só o humano consegue fazer, e o fazendo para se embelezar, para se ver, e ao mundo, por olhos inventores).

Vamos lá, se a ideia é falar de gente.


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