Cinema Novo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eryk Rocha
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 03/11/2016
Ano: 2016


Para ter na prateleira.


Autor: Cid Nader

Designar-se no release oficial do filme como “ensaio poético” passa a impressão de um agarrar-se a conceitos, que parece não ter sido a praia buscada pelo Cinema Novo, na sua formação mais embrionária, mais nuclear. E reside aí mesmo numa certa indefinição (a maior fraqueza) entre querer ser solto e nem tanto o problema maior desse Cinema Novo, que é acima de tudo um baita trabalho de aglutinação de imagens, entrevistas e fotos (algumas raríssimas para o leigo, que por si só já valeriam para conhecer o filme). Sim, Eryk Rocha extrapola ser somente o “aglutinador/pesquisador”, indo ao que é mais apropriado ao cinema sessentista brasileiro - bastante calcado na invenção (com diferenciações evidentes entre escolas e vertentes que viveram entre afagos e pontapés no mesmo período) -, e tentando na montagem algo de “””anárquico””” pensado/elaborado.

Bem, tentando dar um pouco de ordem para não estender demais a crítica:
- nisso da montagem, Eryk acerta muito, e erra muito, também. Quando fala em ensaio poético, traz para si uma necessidade de transitar com o obtido por vieses que nem sempre priorizam o rigor construtivo, e a partir daí, notar setores do filme em que os atropelos de informações e dados tentam casar em “aparência” com os modelos de então, causa sensações de escape diante do que se está vendo em tela. A necessidade de “dialogar” com os modelos citados enfraquece e atrapalha a vida do documentário, seu trânsito diante das percepções;
- por outra, outros momentos de construção se dão bem demais, mas não a partir de mimetizar, e sim na sapiência em escolher trechos que adornam imageticamente depoimentos. Por diversas vezes o filme vai bem quando setores de diversas obras são expostos e encadeados após alguma fala (aliás, todas elas obtidas de gravações de época – como disse antes, algumas raríssimas – o que confere ao trabalho a elevação maior de algo de pesquisa rara, além de fugir da facilitação de depoimentos arranjados especificamente para o trabalho), o que cria dinamismo e fluidez (dinamismo e fluidez, tráfegos afetados quando o diretor tenta encarar o que seria “porralouquice operística”). Dentre tantos – há o das mulheres brasileiras, fortes, de composição muito nossa, belíssimo – o mais acertado se dá na sequência de um depoimento de Glauber, quando evita a ideia de todo aquele momento mágico (e de reconhecimento internacional) ser de criação de nossas cabeças, referindo a influências do cinema da propaganda soviética, do neorrealismo, do cinema ianque, do francês, para em seguida fazer-nos notar tudo isso com diversas sequências ilustrando quase professoralmente na tela;
- além da maior e mais admirável força de Cinema Novo estar no garimpo, na escavação – o que por si só valeria todo um trabalho, sem a obrigação de ser “ensaio poético", pois como o próprio diretor percebeu (até no modo de organização e priorização) isso -, os depoimentos, as entrevistas de época, o abraçar alguns dos movimentos e tendências paralelos que estavam acontecendo (não cita o udigrudi, o marginal... mas traz Khoury, Jabor... e o tempo me fará tentar entender se isso poderia ser fruto da pinimba mais forte de então, que antagonizou, principalmente no início, o “americanismo-urbano” do Cinema Marginal à brasilidade do Novo, mais puro), ampliam sua alma informativa: a ponto de imaginar que seria um belo exemplar para se ter em casa, para ser ver vez por outra, como aula mesmo, ou como desejo de ver cenas mitológicas, ou de ouvir um Joaquim Pedro dando lições em suas falas que deveriam ser ouvias com atenção por grande parte da galera que faz nosso cinema de “vanguarda” na atualidade...

Eryk Rocha arrisca desde o início de sua carreira com um cinema que parece explanar muito do seu modo de ser. O que tem resultado obras inconstantes, talvez um tanto necessitadas de “gritar”, mas que se veem tolhidas na hora do jorro maior: restam filmes que são de complexidade (na pesquisa, na “tentativa” dos arranjos estéticos), mas que não alcançam patamares de inquestionabilidade (bem: talvez nem seja essa sua intenção). Com Cinema Novo, talvez com menos “reverência” ao fantasma do sobrenome sobre os ombros (o que poderia parecer incrível já que se trata de um trabalho que vai ao cerne e aos motivos da fama de seu pai), mais atenção ao tema, e um resultado mais complexo...

Disse na ocasião do Festival de 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro que escreveria mais (ampliaria as observações) quando estreasse em novembro (estamos em novembro e está estreando, mas deixo mais para frente esse “escrever mais”), mas deixei aqui dois pontos finais: filmes deveriam sempre falar muito mais por si (os discursos enfraquecem, parecem querer direcionar questões, principalmente quando se dão antes da obra ser exibida); e os créditos finais são lindos, como bela contribuição lúdica de aproveitamento dos “documentos” obtidos.


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