Sinfonia da Necrópole:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Juliana Rojas
Elenco: Eduardo Gomes, Luciana Paes, Hugo Villavicenzio...
Duração: 84 min.
Estréia: 14/04/2016
Ano: 2014


Muito paulistano (?).


Autor: Cid Nader

Crítica feita na ocasião do 6º Paulínia Film Festival

Até onde Juliana Rojas continuará surpreendendo com uma capacidade de compreensão de cinema que busca insistentemente a fuga do comum, parece que por enquanto não dá para saber: na realidade, praticamente todos os diretores do coletivo “Filmes do Caixote” carregam em suas obras essa evidente tentativa de fugir do comum, do que possa ser considerado minimamente atrelado ao discurso mais universalizado da construção de cinema (e vale lembrar que já apareceram com tal instigação e desejo de “anormalidades” lá nas suas gêneses, que para o mundo foi teatral, na rara “Companhia do Latão”, para depois a ida às telas com sequência de curtas que até certo ponto recolocou a cidade de São Paulo novamente numa ponta de qualidade que podia emparelhar com o que se fazia de bom em nossa grande produção curta-metragista nacional).

Bem, se é de trabalhos “estranhos” que ela (eles) vive(m), vale também aproveitar o fato de ter falado em São Paulo para emprestar mais uma marca ao que faz: que são filmes com acento paulistano bastante raro e preciso, variando entre certa tendência/atitude underground da cidade (de forte presença numa camada de pessoas que resgata elementos nascidos um bom tanto atrás na cidade, talvez ligado às criações musicais dos tempos do Lira Paulistana, no início dos 80 – quando a maioria deles “nem pensava em nascer”, ou no máximo saiam do útero -, talvez de influência dos “modos” de ser um gueto uspiano...), a ostentação desavergonhada (até orgulhosa) da cidade, fisicamente mesmo (desde seus locais, aos seus modismos, passando pela feiura ou pela admiração de recantos onde especificidades de comportamento típico de diversão daqui são elevados a trechos/marcas dos trabalhos), para ir também ao humor (normalmente mais contidamente, mas com vestígios aqui e ali, anteriormente) muito ao nosso estilo (que é mais chegado à auto-galhofa).

Como se estivesse cumprindo etapas de desapego, agora chega a sua vez de concretizar um longa de forma individual na direção, principalmente em relação a seu eterno companheiro desde os primeiros instantes dos curtas que é o Marco Dutra. Como que mantendo a tradição de sua galera, tanto ele como todo resto dos que compõem esse grande mundo do “Caixote” estão decisivamente engatados na feitura de Sinfonia da Necrópole, e esse desapego que surge na assinatura do filme, constata-se realmente não existir em todo o resto de sua estrutura. Mais especificamente, aqui, num trabalho que galga o patamar das estranhezas para constituir história que se passa, numa primeira camada, em cemitério, envolvendo trabalhadores e toda a espécie de seres possíveis de transitarem por tal ambiente, para derivar qualquer coisa que pudesse representar narração clássica ao modo em que se narram histórias em musicais (atípico, sim), Marco surge como seu parceiro nas composições, com as elaborações instrumentais, enquanto a ela restou a criação das letras (mas há mais colaboração dele no filme). É curioso o quanto esse pessoal originário da mesma gênese tem forte ligação com a elaboração de músicas, algo que se constava já nos curtas de Juliana e Marco, ou nos curtas somente dela, ou no longa dele, pra não dizer no de estreia de Caetano Gotardo, forte companheiro deles nisso de serem as cabeças que mais aparecem na feitura de filmes: e tanto quanto curioso, é lógico o quanto suas composições teriam de ser avessas (como tudo em que põem a mão e mente) aos padrões normais (e lembro novamente algo que refere aos tempos do Lira Paulistana), desde as elaborações rítmicas ao padrão das letras rimadas.

Bate forte demais isso nesse novo longa, tanto quanto o inusitado da ideia, tanto quanto ainda ver muito humor (tentado) por boa parte de sua trajetória: Juliana, mesmo usando a ironia em outros trabalhos sempre o fez de modo mais sutil do que aqui, onde tem parcela de grande monta no resultado. E o faz de maneira notável como reavivamento de uma de suas características, pois a sutil jocosidade de situações é bastante próxima de um certo humor paulistano, que se originou na mescla da “manha” interiorana com a desfaçatez (até ingênua) de camadas de imigrantes que constituíram a cidade, notadamente os italianos. O humor, aqui, ao contrário do terror (essa sim, ainda não citada neste texto, a maior característica e busca dela/deles) se faz como representante de algo que pode falar melhor a um público mais restrito – os de São Paulo, se bem que não obrigatoriamente somente a esses -, mais afeito com seu ritmo. E se é de São Paulo física que ela também vive, é bela sua percepção das imagens do Cemitério da Consolação (fonte de origem), na exploração das artes dos túmulos ou da simplicidade antiga (típica de coisas sessentistas da cidade, com direito a calendário de empresa na parede e enfeites na mesa), mas sem deixar escapar o entorno, o que cerca aquele território cercado, onde a cidade explode em prédios (o que não significa beleza em si, mas marca, com certeza), onde na avenida de fora os carros passam vivos demais, em contraste complementar na imantação do positivo e negativo, diante da tranquilidade onde jazem mortos e paz.

Tal percepção das lentes que a diretora “comanda” consegue num dado momento trazer seu mundo particular (e o dos amigos e parceiros) numa cena em bar (algo que sempre soa como ação entre amigos, como algo que divertiu mais a eles do que como algo que caia bem realmente como um dos elos sequenciais) - o que talvez seja justo para com a identificação com seu entorno -, sendo sutilmente elucidadora do que é a cidade contrastada ao mundo dos mortos quando do instante noturno dentro do cemitério (aliás, se fosse para escolher uma única melhor sequência musical de coreografia – e até como letra -, esse momento, onde o protagonista principal, o jovem Deodato, é atormentado, pode ser classificado como o mais-mais, de beleza nos atos e nas luzes e ângulos para as captações: momento em que toda sua percepção de como esquadrinhar ambientes explode, como é muito comum em seu curta-metragem, O Duplo, por exemplo) permite a observação fugaz, mas brilhante, daquela antena de emissora de TV toda variante em cores, acima, fora.

E o terror, num filme que fala e trata de mortos em seu “ambiente” clichê? Obviamente que quando se vai a algum de seus trabalhos (ou algum de Marco, ou mais ainda de ambos) há de se preparar para que as palpitações cardíacas não excedam patamares seguros à saúde: aqui, em Sinfonia da Necrópole, o que se poderia pensar como instantes assustadores são justamente os criados como os que entregam os mais belos trabalhos com as imagens, as mais bem engendradas captações. Fica a certeza de que há a total consciência no filme de que câmera fixa “observando” as estátuas e tumbas, do rés do chão, com tomadas paradas e som diáfano, pode causar sensações de paz/medo/beleza; enquanto a que acompanha em paralelo uma caminhada, fazendo “questão” de mostrar que se mexe, desviando o foco do alvo, do caminhante, para corredores, para esquinas, detalhes de árvores ao vento, com justo auxílio do som, é a que pode detonar a sensação do medo. Os instantes mais “elaborados” de dentro de toda a “elaboração” são os que mais aproximam o filme da “marca terror”: necessários.

Com certeza, há uma certa denúncia (à cinema pernambucano) quanto à verticalização agressiva de nossas vidas, mas usando os mortos como mais um alvo prejudicado, em sua paz e na beleza de se seus ambientes. Com certeza, algumas letras parecem forçadas a mais para caberem como algo palatável: mas, ao mesmo tempo, tendo-se de levar em conta que não é de naturalismo e “coerência” comportada que ela construiu sua carreira até aqui. O mesmo pode ser aplicado a algumas sequências, que parecem menos fluidas, tendo de caber à nossa percepção se o foram assim por opção ou por pequenos equívocos de exigência e ritmo. Com certeza, o que não pode deixar de ser lembrado, é que há buscas ali, como em seus trabalhos anteriores, e que há variações no obtido: o que é de se esperar de quem está sempre nessa busca pelo não usual. Com certeza, há muita mufa pensante/pulsante por aquelas bandas, por essa turma: mesmo que triscando equívocos.



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