Eu Sou Carlos Imperial:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Renato Terra, Ricardo Calil
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 17/03/2016
Ano: 2015


Ode ao mito. Mas...


Autor: Cid Nader

Pela segunda vez dirigindo em dupla, pela segunda vez utilizando gênero documentário para exercer suas veias cinematográficas, pela segunda vez carregando como época preferencial (preferencial, não necessariamente exclusiva) a década de 1960, Renato Terra e Ricardo Calil perderam um tanto de terreno em relação ao primeiro trabalho em conjunto, (Uma Noite em 67), quando, da mesma maneira que aqui, se valeram de caminhos similarmente básicos para a construção e o fluxo narrativo – depoimentos em diversos tempos (atual, e por entrevistas antigas) e imagens de arquivo.

Se a estrutura é parecida, se a dupla de diretores é a mesma (e com certeza com mais tarimba na atualidade), por qual razão esse daqui resultou menos feliz do que o anterior? E notando-se que o assunto, aqui, mesmo todo centrado numa única figura (no caso, o multiartista Carlos Imperial, carioca típico daqueles tempos em que as chances se apresentavam e os de mais capacidade, mas principalmente mais espertos, aproveitavam), pode ser considerado tão rico em assuntos como o que abordou o festival de 1967. A impressão é de que não conseguiram lidar com a “mecânica” de construção pelos movimentos da montagem, nas opções da ordem das cenas (captadas ou documentais – que eram fartas, já que sujeito da TV e do cinema, e que por muitos momentos se apresentaram como o grande acerto do filme, sendo que algumas delas pareceram raras e fruto evidente de bom trabalho de pesquisa)... Que ao terem de lidar totalmente com algo que poderia definir por organização estética de mais arrojo ou riqueza, não se permitiram mais, contentando-se com um certo arrefecimento que situaria o trabalho sobre pilares mais seguros e sóbrios, dentro de algo como padrão jornalístico-informativo.

Se a figura de Carlos Imperial por si só é capaz de prender a atenção – principalmente as de quem nunca o viu antes -, se os depoentes arranjados trataram de adensar mais as informações (se bem que por muitas vezes isso se dando de modo a parecer que o pitoresco vigorava sobre o crível), e se havia realmente muita riqueza mesmo nos trechos antigos (as de TV são boas, a entrevista antiga necessária, mas as dos filmes de cinema atingindo o ápice para se tentar compreender o excesso de “macheza-testorônica” que brotava dele), Renato e Ricardo não souberam dinamizar o material como ocorreu em Uma Noite em 67, e isso porque lá, bons garimpeiros que parecem ser, tal material de dinâmica (entenda-se isso de matéria de dinâmica o que faz o filme fluir desobrigando o espectador da atenção que depoimentos, por exemplo, exigem) já veio pronto na ideia de Paulo Machado de Carvalho, com suas mil câmeras filmando tudo na noite de encerramento do festival, com edição que tinha viés e ritmo de quem ainda pensava a televisão como derivada do cinema. Essa grande força não se sustenta aqui – longe de ser um desastre, obviamente, mas talvez enfraquecida na comparação imediata que vem à mente -, o que impõe mais atenção aos depoimentos (em meio a tanto material de arquivo, acabam se impondo as falas dos outros sobre o protagonista), que por momentos são camaradas, por outros direcionadores, em mais alguns louvadores, e um tanto nos outros propícios estarem para enriquecer fama de “cafajaeste camarada”.

E isso do cafajeste camarada construído fortemente durante todas as seções das cabeças-falantes também incomoda, enfraquece, ainda mais na companhia de uma certa pieguice brotando nas aparições de seus dois filhos. Carlos Imperial, a figura, prende a atenção por si só e pelos seus fatos/lendas... E está muito mais nele do que na ordem da edição a atração que o doc tem.


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