O Cavalo de Turim:


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Original: A Torinói Ló
País: França/Suíça/Hungria/Alemanha
Direção: Béla Tarr
Elenco: Erika Bok, Mihály Kormos, Janos Derzsi...
Duração: 146 min.
Estréia: 18/02/2016
Ano: 2011


Enlouquecemos, mesmo sendo - ou por sermos - nossos deuses.


Autor: Cid Nader

Existe um simpático chiste culto que insinua ser lógica a concentração de nascedouros das ideias e pensamentos elaborados, que resultam – por exemplo - o grosso da filosofia moderna, na Alemanha, Rússia e “periferias geográficas”, relacionando o fato à austeridade invernal que sempre “acometeu” tais regiões: o que, evidentemente, lançava seus homens para o interior de suas moradias, sem que a luz do sol fosse minimamente constante para dar brilho à vida, ou aquecer o corpo. As questões existenciais tomavam a vez dos afazeres físicos, a tenebrosidade das sombras incitava ao questionamento do divino, as lógicas se enfileiravam sob-rascunhos elaborados e cultamente profícuos, e seres incomuns reconstruíam um mundo sob impressões geradas pelas temperaturas baixas e pouquíssima incidência de luz solar para “iluminar” de alegria fácil a compreensão da vida.

Nietzche pensava no homem afastado do divino, capaz de ser seu próprio deus e criador de suas próprias regras morais, sem que tal atitude de composição de um ideal viesse a sofrer carga punitiva para questionar tais atitudes sob os rigores do cristianismo, como sempre ocorreu com os personagens de mesma estirpe “amoral” (amoral no sentido mais do distanciamento do ditado pela justeza social, pelo conviver em plenitude de ideias com os pares e vizinhos) criados por Dostoiévski. Escritor que era seu ídolo, que o influenciou, mas que tirava alguns de seus personagens literários das regularidades – inflando-os desses poderes amorais/egoístas -, para jogá-los, ao fim de suas histórias, ante a única possibilidade do “perdão” (seres que passavam a sofrer severas culpas, ditadas pela própria mente clamando por arrependimento), somente possível pela rendição e subjugação a Deus.

Esse Nietzche (que também lá no fundinho ruminava seu cristianismo protestante, porém, sem permitir respingos em seus produtos filosóficos), que representa o mote que infere a suposta necessidade de uma situação sua como a deflagradora da história que será representada em tela: dizem que o filósofo (em 1889), ao ver de sua janela um cavalo sendo brutalmente espancado por seu dono, teria se abraçado ao animal, beijando-lhe o focinho entre lágrimas, para nunca mais retomar o juízo – sendo internado já insano mentalmente para levar o resto de vida sob os cuidados da mãe, e posteriormente da irmã mais nova, até o fim de sua vida em 1900. Era o filósofo, agindo qual o personagem de “Crime e Castigo”, numa cena semelhante ocorrida na infância.

Béla Tarr inicia O Cavalo de Turim com a citação de tal fato, para logo após ir atrás - com suas lentes e música - do que teria ocorrido com o cavalo e o homem que o espancara. Sob essa pressuposição da humildade buscada como o que iria preencher o filme de vida e dados, percebe-se novamente que o diretor húngaro fica muito distante de fazer das “simplicidades” os elementos que servirão de condutores de sua história, preenchendo os meandros e criando camadas que sob nenhum aspecto lhe inferirão acomodação. Como em qualquer outro trabalho seu – valendo lembrar que, aqui, talvez ele tenha atingido o maior pico de sua obra - os personagens são dotados de aspectos bastante mais complexos do que suas figuras “toscas/brutas” falseiam ao olhar inicial, e os métodos buscados para que eles transitem ante o olhar espectador jamais estão abaixo do máximo da excelência: de beleza visual, e de modos técnicos utilizados para obtê-la.

Montado com infinidade de rígidos planos-sequência, já logo no primeiro percebe-se o quão preciso e precioso (e precioso) é o diretor, pois por muitíssimos minutos, sobre terreno encrespado, (estrada de terra e mato no entorno) suas lentes jamais deixam de alcançar a carroça puxada pela égua de um simples camponês (perceba-se: o cavalo de Nietzche, para Tarr, seria fêmea), com firmeza, com certezas do que será filmado em cada trecho, em vai e vem constante, que por vezes abarca todo veículo, homem, animal e entorno; por outras, com a câmera passando por baixo dela e fixando-se em sua face esbaforida; e em mais outras, persistindo na perseguição, de modo paralelo, com imagem tomada do meio das árvores e arbustos - tudo sob ventania implacável (que será o elemento punidor e constante por todo o tempo), até o destino que é o “sítio” onde o homem vive vida extremamente pobre, ao lado de uma filha já adulta.

Vale lembrar que os dois personagens humanos principais são exigidos fisicamente de maneira impressionante pelo diretor, com atos que demandam muito esforço e utilização de habilidades inimagináveis para atores comuns (o “montar” a carroça, tirar água do poço, cortar lenha, fechar portas de madeiras com trancas rústicas...), o que cria a sensação de angústia avolumando a cada desacerto que o filme fará questão de impor como destino. Tais desacertos acentuam-se com a continuidade inclemente do vento por dias – o que gera a sensação do frio e isolamento aumentando, num local já nitidamente gelado e ermo -; com a recusa “estranha” da égua em sair para novas jornadas de trabalho; com a constatação da imobilidade do braço destro do camponês (de olhar também defeituoso), o que obriga a ter a ajuda constante da filha para alguns afazeres mecânicos; com a única fonte de alimentação se repetindo na mesa sem nenhuma outra perspectiva, ou exigência, alimentar; para acentuarem-se mais ainda com “um estranho de origem física” passando a ordenar os últimos instantes da história (a luz e o fogo se negando como fonte – notável perceber a sutileza naquela fumaça provocada pelo respirar em locais frios ganhando espaço no interior da casa).

Todas as encenações repetidas do filme (as dos trâmites diários obrigatórios que tem a ver com as ações automáticas do dia-a-dia – acordar na cama, comer na mesa, ir ao poço pegar água...) são tomadas cada vez de um ângulo, com a lente da câmera representando sempre um ponto de vista possível e diverso para tais atos, que a princípio são oriundos de um mesmo procedimento mecânico, mas, na realidade, recheados de nuances variadas, de “transpirações interiores” para além de piscadas ou gestos sutis, de uma impossível não repetição geométrica: a mente humana, o pensamento, o simples fato de agir logicamente, não permitem que atitudes semelhantes no gestual impeçam o devaneio.

Tudo que poderia rescindir a exibicionismo, nas mãos de outro que se aventurasse a concretizar tanto rigor na confecção (que ainda por cima embrenha um PB representativo digno da atmosfera reinante, com a mesma bela música sempre repetida – sem que tal repetição parecesse ato facilitador para trânsito das emoções buscadas), com Béla Tarr rescinde a primor e amor à arte que executa: as imagens obtidas a todo instante, sem nenhum escorregão ou folga na perspectiva, inundam todas as sequências de andamentos visuais perfeitos.

Tudo que poderia rescindir a esquemática utilização de mentes comuns agindo em terreno propício para o trânsito de lentes ávidas somente pelo espaço, perde razão de dúvidas quando se nota que essas mentes (com seus atos comuns e secos, drásticos e diretos, sonorizados por poucas falas) agem de forma muito fortemente atrelada a princípios que poderiam ser pressupostos como filosóficos. As situações ditadas por um aparente conformismo ignorante, na realidade “dialogam” com a certeza (à Nietzche) da “atitude” tendo de se impor à “reflexão”, já que o agir é que poderá prover e criar meios de resistir em ambiente tão impróprio para a vida – não há ações minimamente religiosas partindo de pai e filha, por exemplo. A dureza deles é necessária para sua sobrevivência (“criadores de suas próprias regras”), e se agirem duramente contra outros, como ocorre numa rápida passagem de ciganos pelo terreno, tudo será válido, porque eles, naquele meio, são os únicos donos de seus destinos (seus próprios deuses). Se há alguma possibilidade de “ingerência etérea”, digamos, podemos voltar os olhos e atenção ao que sucederá com o pobre (e mais influenciável, obviamente) animal, enquanto as estranhezas ganham espaço.

Num filme de fortíssimo poder hipnótico – nem é necessário elencar os diversos motivos que o fazem assim -, intuir e divagar nas observações pode ser a melhor maneira para tentar assimilá-lo, se a ideia for a de decodificá-lo. Mas, “somente” assisti-lo, já causa o máximo prazer possível para quem queira perceber o quão nobre pode ser essa arte cinematográfica.


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