O Menino e o Mundo:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Alê Abreu
Elenco: Animação
Duração: 80 min.
Estréia: 21/01/2016
Ano: 2013


Alê Abreu é mestre das técnicas e dos afetos


Autor: Cid Nader

Entre as diversas situações que chamam demais a atenção nessa nova e riquíssima animação de Alê Abreu está a questão mote da história, que não finca certezas nem em tempo, locais ou razões pra valer, mas que sugere um dos temas mais duros da humanidade, que tem a ver com o deslocamento obrigatório de levas de seres dos campos, para tentar a vida nas urbes (isso, inclusive, apesar de parecer coisa mais datada já nos idos da revolução industrial, na realidade acompanha a espécie por séculos, de diversas maneiras, mas sempre com a constatação de que tais deslocamentos invariavelmente destruíram almas, famílias, certezas e ingenuidades, fugindo do que pareceria a pobreza incontornável). Quanto mais o dinheiro ganhou morada nos centros urbanos, mais acentuou essa debandada... Debandada que por força do homem ser o sonhador também gerou obras de arte para discuti-la. O cinema de forma direta foi ao assunto (posso citar o clássico genial de John Ford, Vinhas da Ira - baseado na obra literária de Steinbeck -, ou no mais desconhecido e recente Do Outro Lado da Lei, filme argentino de Pablo Trapero), mas Alê faz de sua animação algo a ser referenciado mais por aspectos técnico/estéticos do que pela certeza de ser um trabalho sobre imigrado.

Referências que estão de forma mais inequívoca e facilmente constatável em Moebius (Jean Giraud) - nos instantes drásticos da guerra, que perpassa à frente dos olhos do menino já em sua jornada pelo mundo - ou na própria figura dele (talvez mais ainda por suas reações), que remetem ao mestre japonês Hayao Miyazaki. Mas, ok, que se deixem as possíveis referências ou subintenções de lado, e se vá ao belo trabalho gerado pelo diretor, com enorme equipe: que demandou anos de labuta, utilizou animadores que lidam com diversas matrizes materiais, e, num mesmo patamar de importância para o andamento, de músicos diversos – há em O Menino e o Mundo variantes incríveis nos modelos de composição visual, tanto quanto variedade em tal monta na sua sonorização, mas tudo em sincronia nas suas fusões que só poderiam ter sido pensadas cada uma em seu instante. Talvez tamanhas gamas de técnicas sejam as responsáveis pela impressão de algumas quebras, de uma certa descontinuidade narrativa; talvez tal impressão tenha vindo ao gosto mesmo do diretor, que poderia ter idealizado o filme em esquetes, em grupos, para pensá-las ajuntadas somente na hora da edição... A “possível” história se dá na visada mais perceptível justamente no mote que remete ao filho e o pai, ao garoto que sai ao mundo inconformado com a partida dele. A história mais complexa e bela espalha-se por sensações dele, que já podem ser notadas logo nas primeiras cenas pelo olhar de criança brincalhona e sensível ao belo, que estica para um impacto que jamais qualquer uma quereria sofrer, ganhando o mundo, ganhando outros sentidos, indo do mais singelo primeiro contato parceiro na jornada (um cachorro, afinal), para o encontro com outros seres, com outras vias, com situações das mais impensáveis e marcantes – e mais ainda quando se revela atemporal.

Apesar de serem notórias as diversas mãos e mentes que trabalharam para a construção, a alma de Alê Abreu se faz notada por diversos detalhes: já na situação das elaborações musicais mais complexas, que repetem um eterno cuidado dele com setor por vezes tão desprezado e que pode simplesmente trazer para si a função de ser um dos “narradores”; cuidado que se repete também no tempo demandado para a conclusão (coisa que se repete); o modo de pensar seus filmes evidentemente para crianças, mas sabedor de que elas sempre estarão acompanhadas por adultos e mais, de que elas conseguem pensar, elaborar, compreender e concluir questões que não se entregam de modo algum bobinhas ou mastigadas; os traços de seus personagens entregam-nos sempre belos e cativantes em sua infantilidade e pureza; além de passarinhos, aqui e acolá (parece que lhe esquenta a alma trazê-los à telona)...

E é necessário falar um pouco das técnicas utilizadas (num filme tão “dispersado” como cito acima), que impõem sentidos diversos modos ao olhar e à linearidade, sendo variadas das mais diversas maneiras: elas, emprestadas de atos em 2D e em 3D, onde traços simples desenham diversas das figuras chaves (mas com técnicas diferentes: o menino, por exemplo, parece mais uma figura de máscara/tela de grafite, sem traços de entorno controladores ou aprisionadores; os pais, já figuras desenhadas ao modo mais “tradicional”, com beiradas e tal; os passarinhos, então, uma especialidade de desenhos do diretor), onde recortes de papelão ou montagens constroem elementos mais complexos, ou quando é rompido o ciclo “falso” das construções manuais para serem intrometidos na edição diversos trechos de filmes importantes, e mais outros relatando sobre agressões à natureza... E já que é um filme para crianças, principalmente, e adultos, rola um certo didatismo antibélico e de defesa da natureza – para além do intuído lamento pelos deslocamentos humanos.


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