Órfãos do Eldorado:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Guilherme Cezar Coelho
Elenco: Daniel de Oliveira, Dira Paes, Mariana Rios
Duração: 96 min
Estréia: 12/11/2015
Ano: 2013


Cópia de modelos que evitam arriscar


Autor: Cid Nader

Filmes da Tailândia ou da China, com suas “intuições” espirituais ou cargas mistas visuais que somente o ambiente tropical pode gerar; alienações e fugas da “verdade chão”, quando se busca na força de outros elementos (podem ser etéreos, de escapes mentais, do tempo concreto) uma espécie de impacto suave, lúdico, onde a música se encarrega de fazer notar um protagonista dispensando a realidade por estar em outras buscas...

Por alguns instantes, botando muita fé na espetacularização facilitadora que nos empresta aos olhos todo esse ambiente amazônico que abriga Órfãos do Eldorado, Guilherme Coelho ingressa na floresta tropical, nas coisas urbanas que parecem sempre de tempos colonialistas nesses locais onde as águias e as matas (por conta de uma certa decadência que sempre resta mais forte e notável onde já se fez dinheiro fruto de explorações) criam fluxo hipnótico e realmente determinam, o ciclo da vida, tenta se valer disso e acaba perpassando por uma cena ou outra modos de imagens que lembram, Wong Kar-Wai (há uma breve sequência por entre vento numa “floresta” de palmeiras que faz lembrar o vagar determinado de Yudddy em Dias Selvagens), ou Apichatpong Weerasethkul (quando a floresta no todo, o céu, o sol, a água, aparecem como os únicos abrigos críveis às memórias, aos “espíritos” que teimam em ser muito presentes); e ultrapassa seu “rincão”, seu reconhecimento imemorial para ingressar no que é tão da origem, mas do aprendizado, quando sugere instantes de escapes físicos para os da metafísica, criando um ou dois instantes em que música, velocidade e clima remetem um tanto ao que professa Terrence Malick...

Vale dizer sempre (e sempre, e sempre, e sempre) que qualquer arte quando se vale de uma outra para a criação jamais deve ser comparada no sentido de paridade ou justeza: isso mais ainda no cinema, que tem mesmo de se valer de bases outras (quase sempre) para ser ressignificado, mas que merece muita atenção para não ter de sofrer com comparações, já que é a arte que mais permite (exige) intervenções diante da obra matriz. Dito isso, e lembrando que o filme PE baseado na obra de mesmo nome de Mílton Hatoum... É escritor raro por nossas plagas (por vezes me permito pensá-lo como o mais interessante dos tempos atuais – não o mais revolucionário ou de provocação culta, mas o que encontrou um veio raro de trânsito para suas palavras), pois traz sua Amazônia da infância para as histórias que escreve, total e plena na curiosidade exótica que pode provocar, mas preenchendo as outras camadas dos textos com sutis e bem emaranhados arranjos de introjeção erudita, acadêmica (fato que se dá no ser que sai de seu rincão, ganha o mundo “urbano” – ele viajou mundo, se formou em arquitetura em São Paulo e tal), fazendo de muitos de seus livros (inclusive isso se dando fortemente aqui) algo a ser referenciado facilmente com expoentes da transformação e pensamento humano.

O grande drama é que, mesmo tentando intuir intenções do diretor (ou simplesmente delirar imaginado nas possibilidades de relação), o filme realmente acaba sendo mais uma dessas obras que andam entulhando um dos setores possíveis de serem ocupados de nossa cinematografia recente. É um setor onde filmes surgem carregados de atmosfera visual, com forte aposta nas possibilidades pictóricas dos locais onde é filmado, mas que não conseguem obter estofo que passe credibilidade na razão do que foi captado sendo inserido na trama, no drama, na história; é um setor onde a aposta na carga de sensualidade invariavelmente dependerá de luzes atravessadas, de pouca definição e clima que remeta a fotografias de revistas que fingem entregar, mas são de estética oca basicamente publicitária; é o setor onde a carga das atuações fica capenga, pois é entrecortada pela necessidade (ou medo de que se note debilidade no que se conseguiu obter) de uma edição mais urgente e cortada do que o desejável para que aceitemos/compreendamos personagens invadindo nossas mentes; é o setor onde a narração em off surge como a mais vagabunda das muletas (onde se dispensa a possibilidade de originalidades que o cinema deveria sempre buscar para cozer elipses, passados e futuros); um setor que seria sim muito mais desejável do que são as fartas produções com forma de novela que andam invadindo nossas telonas, mas que tem fraquezas, impedimentos, fingindo confiar no poder das imagens, mas entregando-as cópias de modelos... Isso: é um cinema que é só modelo, cópia, sem mais idas ao cinema em si, sem investidas, com medo do erro.


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