Olmo e a Gaivota:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil/Dinamarca/Portugal/França
Direção: Petra Costa, Lea Glob
Elenco: Olivia Corsini, Serge Nicolaï, Arman Saribekyan
Duração: 82 min
Estréia: 05/11/2015
Ano: 2015


Quando a ficção se torna híbrida.


Autor: Cid Nader

Se fosse necessário intrometer uma classificação por gênero nesse avesso Olmo e a Gaivota, com certeza a da moda de uns anos pra cá lhe cairia mais ajustada do que nunca: “híbrido”. Esse é um trabalho híbrido para mais de ser numa única essência. Enquanto a história transcorre, enquanto seus dois personagens principais vão sendo metodicamente delineados por variações (sim, o casal de atores, Olívia e Serge, mais do que serem notados por um viés de ligação formal – aquela em que intempéries e bonanças tratam de se fazer quase meio do cotidiano de casais, num jogo que parece de excesso, até que a limpeza surja para mais outra rodada de viver em relacionamento – são seres que falam e cantam o tempo todo em diversos idiomas, como atos naturais, sem impostação, para que isso, pelo acumulo e pelo avançar do filme, venha a ganhar explicação certeira, de delineamento concreto, nada, que tem de viver e pensar no cotidiano, mesmo tendo a cabeça nas artes, aqui as do teatro...), pra que se os “compremos” como protagonistas de cinema, o porvir trará concretudes palpáveis (na forma do corpo dela), ou derivará para tramas que contam de outros amores, por exemplo.

Enquanto suas figuras em tela ganham nuances bem desenhadas, o fato de trazer uma arte em paralelo com seu modo de vida os retira um tanto do chão; enquanto ela tem de abandonar o sonho de ir a Nova Iorque e Montreal, junto com sua companhia de teatro justamento porque um outro sonho (esse da amplidão e perpetuação das espécies) está iniciando, as interações de duas personagens (Arkadina, e Nina, uma que envelhece e outra que é tocada pela insanidade) com a que “sofre” as transformações que a maternidade entrega de carga carregam o filme para os recantos de imaginário. O tal hibridismo, que aqui se faz de maneira bem natural nas costuras do que é da realidade com o que é da invenção, também ganha fronteiras que extrapolam para além dos hormônios que se transformam, e indo ao que poderiam fazer na mente de alguém atormentada pelas mudanças. Hibridismo que consegue a bem-vinda façanha de retratar por um período o que é de teatro (em atos “reais de interpretação”), sem jamais abandonar a potência do ato, do palco, dos camarins, mas com todo o bom manejo do cinema para tal, num ato de construção extremamente feliz em tempos nos quais notamos cada vez mais realizadores se valendo do cinema como um mero veículo.

Tentando simplificar um tanto: Olmo e a Gaivota apresenta-se bem demais no que é o quinhão mais importante do cinema: o tratamento das imagens. Chegam a ser tão lúcidos e elaborados alguns captar, que por instantes pode até surgir uma dúvida sobre se não seria gratuito exercício de estilos. Não, realmente não. Há a lente que persegue os atos no palco, no início, passando por entre os artistas, quase grudando em seus corpos e faces, num aproveitamento da luz artificial que permite vermos em tela rara equação de cores e granulações (uma mistura que não destaca uma a mais do que a outra, e que obtém maticidades bem bonitas); há a câmera que parece flanar, flutuar, também, em alguns desses instantes de teatro, mas quando acompanha Olívia por situações simples, emprestando sensações que só possíveis brotadas em tela, com seu poder e tamanho, para a captura dos sentidos); há certezas nos planos, muitos deles pra lá de corretos, cooperando para que o que é de capturação ganhe mais “subsídios”; ou há o que poderia ser fugaz imagem do bebê visto naqueles modernos exames de imagens atuais resultando (pela paciência do quadro, pela espera) lirismo imagético.

Tentando simplificar: no que é da trama, ou do drama, ou da arte “humana”, não a técnica: as diretoras conseguiram alcançar diversos patamares, por não trabalharem com camadas simples, por não peritirem que o filme se acomodasse, pelo constante desenvolvimento das situações, sem amarrar suas pessoas (inclusive as que surgem em maior quantidade já para o final, com histórias que “enriquecem” as de Olívia) com cordas cruas. Há um filme que se desenvolve por diversos espraiar, e que ainda consegue causar surpresas quando já se notava não ser “somente” ficção: sem jamais querer-se documentário.


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