Cidade de Deus - 10 Anos Depois:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cavi Borges, Luciano Vidigal
Elenco: Documentário
Duração: 70 min
Estréia: 05/11/2015
Ano: 2013


De quantas realidades pode ser feito o cinema


Autor: Cid Nader

Enquanto o documentário Cidade de Deus 10 Anos Depois persegue muitos dos que trabalharam no famoso filme de Fernando Meirelles (odiado e adorado por aqui, quase que num equilíbrio de opiniões, enquanto sucesso quase sem questionamentos fora do país) para saber, ou para que o público mate a curiosidade, sobre o destino de moleques que ganharam a fama repentina vindos das mais cruéis e excludentes das periferias, algo da função inequívoca (esperada) dos documentários vai sendo cumprida, aos poucos: por um amontoado, na acumulação de dados, entrevistas recentes, e muitos trechos do filme costurados em alinhamento quase fechado (as figuras entrevistadas ou observadas nos dias atuais, sendo emolduradas por momentos em que seus personagens ganhavam destaque maior). Desde o início, em momento algum se poderá cobrar do trabalho que não tenha sido meticuloso nessas buscas e no que renderam como elementos que abastecem a tela: daria para dizer que consegue muito a mais do que falar das figuras principais, do que abastecer o olhar e os sentidos que se interessam em saber o máximo, indo a detalhes que evidenciam o pregresso, passeiam pelo maior instante de fama, e derivam para dados bastante relevantes (quase matemáticos).

A escolha por esse modelo aglutinador é algo que deveria ser pensamento vigente em quem se aventura a trabalhos de resgate, de pesquisa, de trato com o assunto “ser humano”: alcançar bons modelos para cumprir a intenção sem parecer careta na forma escolhida, e mais, sem conseguir extrapolar (não escapar, não fugir do assunto) o que faria parecer trabalho a ser exibido nas salas de aulas para alunos ainda necessitados dos fatos como matéria, costuma ser a regra. E como os diretores conseguiram cumprir tal meta, sem ficar no que poderíamos resumir como mesmice facilitadora? Poder-se-ia pensar no modo como compuseram os instantes do doc, nas opções técnicas adotadas, que derivaram para resultados estéticos bem-vindamente aparteados: se dando na anteposição das imagens do filme em si (sempre de brilho imposto, de cores impostas, em ação que buscava num “visual fingido” a maneira de dialogar com um certo virtuosismo cativante – algo bastante comum às produções da época, e que rendeu a Fernando ataques até com a pecha de ser um dourador da pobreza) em relação às do doc, que não abdicam das cores (é um mundo de cores, afinal, aquele), mas que têm luz real/realista por todo o tempo (criando interessante rompimento/divisão entre “umas” e “outras”); poder-se-ia entender o dinamismo quase de videoclipe utilizado na ficção como algo que lhe dá a velocidade do andamento, das ligas, sendo substituído pelas imagens incríveis tomadas de cima , de helicóptero, com rasantes sobre telhados e chãos (que não são filmadas por Cavi e Vidigal, diga-se); ou, simplesmente, mesmo naquilo de emoldurar os seres de hoje com o que concretizaram em diversas cenas do filme, com a imagem de seus personagens dez anos mais jovens alternando com o que resultou.

Não há excessos onde poderia capengar: os depoimentos que sempre tendem a derivar para os choros e reclamos nessas situações por vezes triscam isso, mas a produção se faz correta ao não “comprá-los” como as ideias motivadoras; um início que poderia parecer louvação ao modelo da ficção, também não se concretiza assim (até citado acima, nos moldes técnicos que os diferenciam, e pelo que o decorrer do trabalho levará a notar); e sem endeusamento da pobreza (principalmente da que resta após a fama) ou ataques gratuitos aos que fizeram a obra de sucesso (só dados que parecem elucidar por si, sem necessidade de pirotecnias para tal).

Por ser filme bastante questionado, por algumas (lendas ou não) opções de Meirelles no trato com essa galera que vinha da pobreza e da ignorância quanto a assuntos relativos a faturamento e que tais, os mais antenados ficam sempre de olho para saber “verdades” que faltam na hora da especulação por parte da grande imprensas ou órgãos coadunados: e Cavi/Luciano, habilmente, e até optando por um certo didatismo na construção (os que fazem a obra derivar das alegrias e coisas mais informais, no início, para os dados mais acachapantes em busca da catarse), no crescendo das situações e a escolha da ordem dos entrevistados, imprimiram ritmos que fazem com que as variações de elucidações, aglutinadas com a consciência da exclusão do negro (ainda bastante notória) no trecho final bastante importante e de viés raro (onde se pode notar a questão da exclusão do que é da favela, pela cor, por raramente ser filho e pai conhecido, pela violência que entorna mitologicamente a região), desembocassem num trabalho que varia de matizes, é importante, sem jamais permitir um só modo de olhar.


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