Obra:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gregorio Graziosi
Elenco: Irandhir Santos, Lola Peploe, Júlio Andrade
Duração: 80 min.
Estréia: 13/08/2015
Ano: 2014


Boa técnica. Pouca confiança num possível não explicar.


Autor: Cid Nader

A “obra” – no sentido do ajuntamento de filmes feitos – de Gregorio Graziosi, basicamente fundamentada em seus curtas-metragens, sempre privilegiou apurado senso de trabalho dedicado ao que é das imagens, com forte amparamento na banda sonora: casamento entre sons e imagens que parece destruiriam qualquer razão para que qualquer um de seus filmes anteriores sobrevivesse se não existissem da maneira como ele os executou . Seus curtas nos acostumaram a enxergarmos e reconhecermos o diretor automaticamente, porque destacaram nas telas muito rigor na formação do quadro (quase sempre de materialização exata, ou arquitetônica, pois de planos em que os cenários, seres e objetos capturados o eram de maneira a pertencerem à telona como peças que a preencheriam sem que houvessem “tortices” na composição final, quando se os notava encaixados – à distância, onde se percebe gosta de atuar, tendo principalmente a cidade de São Paulo como um alvo preferencial, ou mesmo em mais raras situações de proximidade, já aí se valendo basicamente dos “protagonistas” como os elementos -, funcionando como o que abasteceria e “direcionaria” o olhar de quem estivesse vendo), com fotografia onde uma espécie de esbranqueamento (como se fosse fog) por bons instantes nublava o visual, e onde o som quase sempre agindo como se fosse oriundo de organismos profundos completavam fluidamente o que o visto nos oferecia de maneira impactantemente bem feita.

A Obra, esse seu longa-metragem, tem sua origem e boa parte do trajeto por onde crescerá remetendo fortemente a todo o conjunto de atitudes que sempre tomou para quase que assinar seu processo de trabalho como a marca mais reconhecível de algo que pode facilmente ser determinado como caminho de autoralidade. E se dá bem justamente quando funcionando nesses espaços e trejeitos por onde Graziosi parece tão bem caminhar. As imagens de uma São Paulo vista de cima, branca, sob aquele fog que lhe é tão caro (à cidade e ao desejo fotográfico do diretor), de cara são capazes de capturar e atiçar a curiosidade de um espectador novato sobre para onde caminharemos (isso, novamente, sem deixar de citar espasmos sonoros que completam a sensação de que mergulharemos num mundo onde a pressão pode nublar os sentidos e elevar a pressão dos tímpanos); o acompanhar a vida de um arquiteto iniciante, criando uma construção (constrói num desses enormes terrenos paulistanos que, no caso, pertenceu à família – e olhar a cidade edificando no entorno pode conferir ao filme certo “ataque” ao que é de especulação maluca e insana imobiliária) que lhe retirará do que é ainda do amparo de uma família que de alguma maneira teve poder, revela sequências, cenas e quadros únicos onde a organicidade (parece tara de Gregório isso) dos elementos ajustados nos planos somente reforçam muito do que fazia nos outros filmes, e de maneira a que se perceba o longa como peça rara no trato dessas questões estéticas; a cidade penetrada por alguns vieses nada comuns (há até a história que inicia num relato sobre o fim da modernidade com a implosão de um edifício nos EUA, para depois se contar, documentalmente, sobre o 14 Bis, prédio da cidade reconhecido pelo formato arredondado, enorme,com galeria e tudo mais, e que vive hoje sob forte processo de degradação), onde locais são vasculhados pelas lentes, como o próprio 14 Bis, todo o centro visto por angulações generosas e complexas, ruas e o trânsito, a escavação arqueológica que é acompanhada pela esposa (inglesa) do arquiteto, ou a bela e inacreditável casa onde moram seus pais, de arquitetura moderna com madeira imperando, plantas da mata atlântica em abundância, mas algo tão típico dos poderosos que moram nas cercanias da cidade; e a cidade submersa sendo vasculhada, revelando dois vértices que podem colocá-la sob o mais desejável aspecto de reconhecimento da formação de uma “civilização”, ou trazendo à tona histórias que se desejavam jamais reveladas...

Quando falo, no início dos seres em seus filmes, vale lembrar que – talvez como a representação em matéria viva e respirante na relação de completude aos outros objetos que são de seu apreço – o corpo sempre moveu as lentes de Gregório a buscas atentas, e aqui, isso também, participando do campo dos acertos do filme, se dá de diversas maneiras, com importância vital: pode ser nas cicatrizes das costas que revelam um mal genético (e que tem importância de reconhecimento na trama), pode ser nos ossos que revelarão mais do que se imagina; pode ser num bebê que surgirá como a nova esperança, o desafogo necessário; pode ser em partes deles, em cabelos...

Visto ao Obra sob essas questões basicamente possíveis por qualidade no manuseamento técnico da feitura agindo em favor da estética, o filme pode até ser tido como raro, de tão bem executado. Mas parece andar acontecendo um fenômeno bem recente em nosso cinema, que é o de uma certa necessidade a mais de explicar-se o “que aconteceu ali”, em “como isso sucedeu”, “qual a razão real disso”... Alguns diretores têm construído seus filmes por caminhos de boa invenção e atenção aos quesitos técnicos, mas na hora h mandam uma “comida mastigada”, na esperança de que o espectador tenha certeza do que se quis dizer. Gregório nem vai tão profundamente a algumas explicações, que são um mote essencial (um fio que conduz, já que se supõe a ficção como algo que tenha de ter razão para existir), de um fato importante, mas ultrapassa o que a sugestão oferecida já por si só oferecia como elementos suficientes para a compreensão, indo a algumas explicações orais, a ato no terreno, ao hospital/clínica, enfraquecendo um tanto os caminhos pelo o qual o filme conduzia as situações: opção dele e obviamente ponto tratado no roteiro como essencial – que se respeite, obviamente... mas, que enfraquece, enfraquece. Talvez isso só não tenha sido tão danoso à excelência do resto por conta do final preciso, muito mais ajustado e orgânico com as texturas outras.

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