Depois da Chuva:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cláudio Marques, Marília Hughes.
Elenco: Pedro Maia, Sophia Corral, Aicha Marques.
Duração: 90 min.
Estréia: 15/01/2015
Ano: 2013


Tomadas de posição.


Autor: Cid Nader

Falar de Cláudio Marques, Marília Hughes é lembrar deles, logo de cara, como realizadores de alguns curtas-metragens bastante interessantes (Carreto, Nego Fugido, por exemplo) numa Bahia ressurgindo a cada dia para o cinema (após um fenômeno como Gláuber, e tendo ainda um gênio de pouco reconhecimento amplo, como é Navarro). É relembrá-los donos de muitas certezas quanto à utilização das técnicas, coisa que emprestava aos trabalhos iniciais probabilidades bastante referentes às possibilidades de invenção que o formato curto permite, aditadas de resultados pictóricos bastante bons (sob quaisquer quesitos específicos pensados: desde uma “simples angulação para as captações”, às nuances geradas pela iluminação... por exemplo)...

Quando se sabe do pregresso bom de um realizador nesse universo curtista, as expectativas diante de sua estreia no formato longa atiçam: principalmente quando se notava o que estreia na nova casa com todos os domínios da anterior e sabedor de que transitava bem por todas as exigências que o formato impunha – e não como um apostador que acertou um filme ou outro. E então inicia Depois da Chuva, trazendo um assunto que para eles já existe como carga de estudos e não como memória adquirida - que é o momento de eleição ainda biônica do primeiro presidente não militar após o golpe que instituiu uma ditadura militar entre 1964 e 1984 -, que de imediato faz imaginá-los tendo de se “instruir” para tal: e foram corajosos, pois excederam o tratamento que poderia ser mais forte e bem estudado se dirigido mais ao momento político, para mesclar diversas situações do então, como coisa óbvia, mas que nem sempre ocorre - indo à grande e bela inserção musical que costura momentos (há um equívoco de datas na reinterpretação de “Poema em Linha Reta”, gravado pela “Patife Band” no ano de 1987, no incrível disco “Corredor Polonês”, que também entrega a música que encerra o filme – mas credite-se isso á liberdade poética); aos atos e modos teatrais que rebatiam a luz dos de vanguarda de então; ao gestual e insuflamento típico nos adolescente de então (que queriam muito as mudanças, e que tinham setor do mundo bastante mobilizado e motivação para atos de similaridade); e até na inclusão de um sutil mas importante drama familiar, na casa do jovem Caio.

E já dentro do longa, caminhando junto de uma narrativa densa e com força suficiente para segurar a atenção, que permite a fluidez das histórias de modo limpo e capturador, nota-se que as imagens criadas são sempre provenientes de atenção e dedicação máxima a cada instante: por vezes, observado o que ferve e ocorre à frente das lentes de modo calmo, como que sem querer interferir nos atos que deveriam ser a razão maior de algumas situações (isso se dá na apresentação da escola, nas “conversas” de Caio com a mãe, nos encontros dele com a melhor amiga/amada, ou ainda nas tomadas da velha “fábrica” em ruínas...); por outras, interagindo com a ação de forma bastante orgânica, como se fosse um dos seres em cena no momento, embrenhando-se e afastando-se, rodando, quase mesmo respirando (já logo de cara, na primeira discussão em sala quando se discute sobre a votação ou não do grêmio estudantil, ou nas grandes sequências musicais da turma dos jovens e desejosos anarquistas - todos esses momentos musicais marginais são raros, de músicas raras, atuações raras sob o som tocado...); além de situações especiais nascidas da obtenção e perspicácia quanto às possibilidades da luz natural em uma cidade de natureza e arquitetura sob tal domínio (quando a garota simplesmente cai no mar, seguida pelo moleque, resulta uma das mais belas cenas a que vi ultimamente).

Cláudio e Marília são jovens, e talvez por isso tenham conseguido dedicar a atenção merecida que raramente se consegue na hora de trazer à tona, ao protagonismo, esse pessoal da faixa adolescente já avançando para a juventude. Normalmente isso se dá criando estereótipos, imprimindo sensações de que todas essas “crianças” são clichês de inconformismo gratuito meio bobo (coisa de hormônios em revolução): quando se consegue “trabalhá-los” com certezas e sem maniqueísmo, percebe-se um momento da vida que talvez seja o mais lindo, e com certeza o que exige mais atenção e dedicação para que se o compreenda. O filme é justíssimo nessa recriação, nessa observação, além de escapar solenemente das armadilhas que tal faixa da vida insinua e acena aos mais afoitos.

“Estranho” ver todo o inconformismo deles e quase desilusão direcionados a pessoas tão jovens, e raro como isso se nos passa de maneira crível – mal comparado, porque falo de uma obra de arte, lembra por vezes os momentos de desilusão pós-barricadas, na Paris de 1968, quando jovens mais adultos são retratados no belíssimo e forte “Amantes Constantes”, do Garrel -: ou bem comparado, porque se um filme consegue remeter a lembrar daquele, é de se pensar bem na questão, e louvar. Dizer que esse seu primeiro longa não carrega equívocos seria exagero: mas não são suficientes para embaçar esse bem-vindo primeiro impacto. Só por impressão e gosto pessoal (sendo que citar isso numa crítica é injusto, já que opção do artista): me parece que o filme manteria mais seu impacto (porque ele é de impacto pelas opções adotadas e executadas) se resolvesse seu destino em tela um tanto antes, ou melhor, se não se fechasse quase totalmente no final – com uma caminhada em direção ao destino que o início indicava. Mas repito: opções do artista são as que valem, e as deles não macularam a bela “surpresa” de um primeiro longa.


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