Ventos de Agosto:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gabriel Mascaro
Elenco: Dandara de Morais, Geová Manoel dos Santos.
Duração: 77 min
Estréia: 13/11/2014
Ano: 2014


Sobre naturalismo fílmico?


Autor: Cid Nader

Uma das melhores maneiras de compreensão e depreensão de um filme está quando ele transita diante do olhar do espectador de forma que pareça algo tão naturalista, a ponto de pensá-lo como algo possível ali na esquina, na praia, que passa diante do olhar e que poderia ter sido algo despercebido, já que tão do cotidiano. Mais do que pensar “somente” no choque – que tanto me agrada, especificamente - como algo que estimula ainda a ida a uma sala de cinema, notar que pode haver trabalhos passeando na tela sem que o espectador não se sinta incomodado com o assento incômodo, que são filmes que conseguem fluir e serem aceitos com o olhar e a atenção apacientados (não acomodados, mas apacientados no sentido de paz proporcionada, paz gerada justamente por estimular outros sentidos de imersão – imersões remetem à paz -, de captura), além de ser alentador, representa pra valer que o cineasta deve ter pagado muito trabalho para atingir tal alcance. Tão bom quanto ter essa sensação do filme que passa e não sentimos que passou, é a certeza de que isso não pode se dar sem muita ralação e atenção, conhecimento de causa, planejamento do que e como será emendado.

Mas seria Vento de Agosto algo mesmo “tão natural” acontecendo ali no escuro para os privilegiados que o veem? A rigor: não e sim – por mais esdrúxula que possa parecer a resposta. E que se compreenda isso. Porque, quando se relembra da “saga” do corpo em decomposição transitando pelas maneiras mais impensáveis por todo um segmento do processo fílmico (mais especificamente num algo que se poderia imaginar como terceiro dos terços), para engrossar o sugerido entre o que é do non-sense humano no comum (há um próprio corpo sendo tratado, os diálogos do rapaz falando dele, o ato da delegacia...), realmente não se pode imaginar estarmos diante de algo tão natural. Enquanto, em contrapartida, quando se relembra as conversas da garota com a velhinha, as respostas hipernaturalistas dela, tendo seu cabelo lavado, ou sugerindo arrumações no lençol, ou ainda reclamando de dores, enquanto a garota reclama de outras coias (ela, que parece “a” deslocada naquele tempo/espaço em que as ações ocorrem), por exemplo, sim, há o tal hipernaturalismo que tanto surpreende a ponto de residir como marca maior que resta. Esse embate entre crível do dia-a-dia e o que poderia ser extremante incomum alterna-se pelos tempos do filme (num primeiro terço, onde a ação documental da colheita de cocos se faz material farto para belezas de imagens, para que de maneira “maluca” sexo e corpos nus se façam complemento das texturas, sobre eles; num primeiro instante dentro desse primeiro terço, onde o vendedor de imagens representa algo que é tão comum pelo nordeste das periferias, para contrastar com sandice antinatural dos diálogos que tentam achar abrigo para um achado no mar – aliás, toda a situação que gera ossadas e corpos, decorrente de um fenômeno real acontecido em praias nordestinas, como contraste total entre natural e inacreditável dentro de um mesmo assinto tratado), mas se dando de maneira tão organicamente arranjada, que, novamente, pensar em naturalismo narrativo (apesar dos apesares) extremo é somente o que resta como sensação base.

Gabriel Mascaro até hoje está para esse cinema recente como um cara que inventa e ousa, que denuncia e observa com olhar atento coisas da sociedade e sandices institucionais, por métodos que sempre partem de elaborações avessas ao já existente. Aqui, em Vento de Agosto, ao criar momentos de beleza rara, ao captar locais de beleza rara, ao inventar momentos (e é um tanto fetichista na questão dos corpos nus, enquanto possante e divertido na coisa do cadáver sendo tratado), mostrando região e atos de trabalhos locais, mas colocando muitas nuances em seus personagens centrais (no inconformismo da garota, que pensa em tatuar, e usa até cobaia insólita, sair, partir; enquanto no rapaz que pesca e vive da natureza, mais acomodado se pega em choque com as coisas estranhas que surgirão no mar, mas ao invés de pensar em sair resolvendo que tem de preservar, cuidar de seu canto), perfazendo no que poderia estar num segundo terço a amarração entre o que poderia ser documental casando e adensando as atuações e elaborações ficcionais, criou exemplo de filme fluido, com muita base e razões expostas.

As imagens belas - seria um baita contrassenso reclamar do apuro da fotografia quando o que mais cobro de diretores é que façam seus fotógrafos trabalharem bem, arranjarem o que é de bom para que o filme tenha sua maior potência de adquirimento repassado nas imagens em tela -, as situações estranhas (arranjadas), as de matiz “real” (talvez arranjadas), e o belo filme.

P.S.1: e como ia esquecendo o momento em que o próprio Mascaro captura sons dentro do filme, o ápice de meu imaginário segundo terço. Nossa: contar das imagens dos mergulhos, dos cocos sendo tratados...


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