Sem Pena:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eugenio Puppo
Elenco: Documentário
Duração: 87 min.
Estréia: 02/10/2014
Ano: 2014


De assertivas ditadas provocantes e determinantes, que cedem, ao final... Por quê?


Autor: Cid Nader

Até que ponto Eugênio Puppo acertou nesse seu longa-metragem que tenta abranger e forma ampla muito do que refere à justiça social no país, quando tratada na esfera do que é tudo como crime, como contravenção ao que é permitido pelas regras sociais, pelo institucionalizado? O diretor é sujeito incomodado, que transita fortemente pelo mundo de nossos cinemas de invenção, marginais, onde a estética talvez tenha quinhão mais importante do que o que é narrado, do que o mote que é criado e conduz o filme: isso, sempre – especialmente para mim – é coisa louvável, pois se está agindo dentro do que uma arte tão ampla em suas maneiras de construção permite: pois cinemas que agradam tanto ao diretor deveriam ser os de maior importância.

A questão colocada no início, como que querendo resposta concreta (sim ou não, acerto ou erro) é justa quando se nota um documentário que vem com a proposta inicial de questionar ou problematizar sobre o assunto, indo ao mais amplo das possibilidades de discussões - o filme é guiado por “oralizações” do início ao fim, que iniciam com um injustiçado social, passam por detidos “que ultrapassaras as regras/leis”, indo aos entendidos de diversas camadas (desde juristas, a estudiosos, sociólogos, passando até por quem é observador pelo viés religioso, e muitos mais), ouvindo diversas explanações pelo tempo todo -, criando percurso acumulador que realmente tenta fechamento completo para que um painel amplo, diverso, farto e colorido seja seu retrato final. Sem Pena consegue ser importante nas abordagens e no que diz e elabora, e talvez esteja nesse discurso que acarreta certa compreensão de nossa história diante das leis (e do quanto alguns sofrem mais do que outros), de como funcionam, de onde se originaram, de como podem ser equivocadas e de como o sistema todo não consegue dar conta, da maneira que é, sua potência maior, melhor.

Os depoimentos por vezes parecem ficar perdidos, complexos, para o espectador por certo excesso de imagens e sons provocadores aos sentidos de atenção. Por todo o tempo todo, sons altos (trilhas dissonantes), muitas imagens poderosas roubando o que deveria ser do ouvir. Isso quando o filme visto ontem, porque agora, nesse instante, parece bastante justo ao sentido de elaboração formalista que norteia a carreira de Puppo a tentativa de despregar os sentidos da realidade fácil (mesmo num filme que tem na sua intenção maior uma “pregação fácil” – porque linear e explicadora), como opção provocadora e instigadora. Quando via ao filme ontem, sentia dificuldades na unção das peças, em aglutinar na memória o que estava sendo contado pela infinidade de depoentes, justamente por conta das interferências ajustadas na edição. Mas escrever agora, notando que todo o dito está preservado na memória, surge como ponto positivo, como que comprovação de que inventar agrega qualidade e não dispersa, mesmo quando se contam coisas que se querem muito pregadas no espectador. Seria o caso, então de acolher Sem Pena como obra e invenção e questões totalmente correto: acertado? Voltando à questão inicial, ainda me parece que não.

Porque numa contrapartida ao que é de invenção e ao que é das explicações até lineares (optando-se por dar preferências mais a um modo narrativo ou outro), Puppo parece caminhar para trás quando resolve que tem que colocar alguma ordem nas situações imaginadas para a construção do todo. Isso se dá pelo decorrer, pelo meio (e, aí, talvez de maneira menos grave, porque se poderia entender como parte aceitável do jogo da composição, mas também impondo sensação de trabalho de colagem, o que destoa das certezas do dito e das provocações sonoras), espalhado de maneira orgânica pelo filme, com as imagens coadunando, “ilustrando”, com o que é falado em cada momento: podem ser as pinturas do injustiçado, pode ser a paisagem/favela vista da casa do sociólogo carioca, ou a pobreza e sujeira execráveis dos sistemas penitenciários (as imagens de cozinhas desgastadas, de mulheres convivendo amontoadas, de celas e pátios piores do que se poderia imaginar num inferno cristão); ou as de colunas, chãos, estátuas de bronze e beleza irreparável (e rica) dos que contam suas opiniões e fazem parte do sistema judiciário (em antagonismo esplêndido aos críveis discursos ditados por alguns do meio, pelo filme – como que numa demonstração visual de afronta ao que é falado), por exemplo. Mas “pega” de maneira mais forte isso que parece um caminhar para trás na “acomodação” das coisas ao final, quando iniciam os créditos e os depoentes por toda a jornada ganham cara (e nomes), em ordem linear de aparição, com ilustrações de seus momentos no filme: talvez seja ato do diretor que agrade e apascente quem pode ter se sentido incomodado pelo todo, mas um tiro no pé (em minha opinião, diante das minhas exigências, pensando no diretor como um “contraventor” do cinema), quando desacredita na possibilidade do documentário que pode sobreviver sem as legendas, sem os nomes de quem fala (já que foi assim pelo filme todo), e mesmo assim se conseguir compreendido (por outras esferas, pelos atos da ousadia, na edição e no ajustamento das ordens).


Leia também: