Os Mercenários 3:


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Original: The Expendables 3
País: EUA/Franaça
Direção: Patrick Hughes
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Arnold Schwarzenegger...
Duração: 127 min.
Estréia: 21/08/2014
Ano: 2014


Interessantes variações sobre um mesmo tema, e diversão garantida, também


Autor: Gabriel Carneiro

Se Os Mercenários (2010) tinha como preceito a reflexão sobre a velhice dos heróis de ação, então decadentes, e Os Mercenários 2 (2012) se fundava no humor acerca dos estereótipos do cinema de ação após a redescoberta dos ícones de outrora, o terceiro longa da série, Os Mercenários 3 (2014), de Patrick Hughes, tem um princípio conciliador. É filme que sabe seu papel dentro de uma cinematografia de ação dos anos 2010, buscando conexão com diferentes públicos, mas sem perder a autenticidade que gerou os dois exemplares anteriores. Sylvester Stallone, o idealizador da série, sabe que não teria muito para onde ir se não renovasse os personagens e o mote da trama, para além de mercenários geriátricos em ação. Da velha guarda, dos nomes do time A da ação oitentista, Sly conseguiu reunir quase todos nos três filmes, com exceções como Steven Seagal.

Pois bem, Os Mercenários 3 surge então como alternativa a um potencial novo cinema de ação. Conciliador, porque busca a mescla entre a era de ouro do cinema do gênero – anos 1980 – e o tipo praticado nos dias de hoje para encontrar uma solução palatável. Muito do sucesso de Os Mercenários 1 e 2 vem do apelo cômico da situação – aquele monte de gente na casa dos 60 e 70 quebrando tudo e todos -, a ponto do melancólico primeiro filme ter se tornado um escrachado segundo. O terceiro filme segue outra verve, abandonando as prévias. A piada não duraria muito tempo: é um filme ‘sério’ de ação, ainda que o humor esteja bastante presente, mas não tanto na sátira ao gênero. Sem o pesar do primeiro filme, busca solidificar a saga como cinema de ação autêntico.

Na história diegética, Os Mercenários 3 acompanha mais uma missão de Barney Ross e dos Expendables, que sofre com problemas de caixa e com a idade de seus integrantes. Quando um antigo parceiro da trupe reaparece, Ross assume postura suicida: dispensa os velhos companheiros e contrata a moçada por quem não nutre qualquer sentimento e parte para acabar com tudo. Mote perfeito para Sly introduzir sangue novo na trupe. Se, por um lado, o filme conta com Mel Gibson, Harrison Ford e Antonio Banderas, traz também diversas apostas no gênero, como a lutadora de MMA Ronda Rousey, o boxeador Victor Ortiz e os atores Kellan Lutz (um dos próximos Hércules) e Glen Powell, todos com menos de 30 anos. O personagem de Sly é o unificador dos dois grupos, os velhos e os jovens, que se provocam constantemente. Ele, enquanto elo, funciona para trazer o que há de melhor nos dois modus operandi.

Em termos estéticos e narrativos, o filme não foge da mesma lógica - alternando entre o procedimento clássico oitentista, com câmeras mais desenvoltas, buscando mostrar a ação com certa distância, testosterona em polvorosa e mortes escancaradas, e a solução para os tempos frenéticos de hoje, com muitas explosões, câmera próxima ao corpo, ágil e na mão, além de ação mais calcada na estratégia do que na brutalidade. Há, inclusive, um emblemático diálogo entre Sly e sua nova trupe enquanto planejam a invasão de um museu onde os inimigos se encontrarão. Sly expõe seu plano: cada um entra por um lado. Seus novos comparsas o ridicularizam. Ligados à cultura tecnológica bolam um plano hi-tech bastante elaborado: dizem ser a nova forma de ação. É evidente que para uma contemporaneidade que exige cada vez mais tudo explicado nos mínimos detalhes, a suposta falta de lógica dos filmes antigos é refutada e tida quase como naïf. Filme atual, em seu suspense e mistério, deve sempre ser engenhoso e supostamente esperto, mirabolante quase. Se Os Mercenários 3 apresenta tal cena com um quê crítico a esse movimento, logo perceberemos que a nova representação é abraçada e incorporada de fato a esse modelo proposto. Ainda que reitere o valor da maneira antiga de fazer ação e reforce que o que importa mesmo é o que acontece e a forma como é mostrada – e não tanto como se chegou àquele ponto -, o novo não é necessariamente uma ameaça, mas forma de completude e de renovação. Vem daí a conciliação, nada ingênua, evidentemente. O que importa é, sim, manter alguns dos valores de uma geração que Sly e seus comparsas na feitura do filme tanto prezam.

Parece caminho acertado e melhorado em relação ao filme de Simon West, em que a construção poética do primeiro filme era deslegitimada em troca de um viés humorístico. Em sua construção fílmica, Os Mercenários 3 é um desfrute, com belas cenas de ação e pancadaria, dosando bem o humor, e evoluindo alguns personagens – Hughes herda bem a direção forte de Sylvester Stallone de construção de personagem calcado na sutileza da encenação (e não nos diálogos etc). Diversão garantida, claro, não ficando muito atrás do primeiro (e grande) filme.


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