Um Toque de Pecado:


Fonte: [+] [-]
Original: Tian Zhu Ding
País: China/Japão
Direção: Jia Zhang Ke
Elenco: Wu Jiang, Wang Baoqiang, Zhao Tao.
Duração: 133 min.
Estréia: 13/12/2013
Ano: 2013


China!


Autor: Cid Nader

Se a cidade de Fengie (com mais de dois mil anos) - sendo destruída a marretadas para a construção de uma usina hidrelétrica - servia como mais um dos cenários para que Jia Zangh-Ke questionasse novamente a aceitação da globalização, por parte da China, como seu novo modo diante de um mundo competitivamente antítese ao que representou o país como o maior gigante do comunismo (no filme Em Busca da Vida, de 2006), por exemplo, onde, num dando momento um prédio levanta voo, para exemplificar, talvez, o estranhamento que isso implicava, ou algo como desejos de fugas da realidade para “poder aceitar” as mudanças, aqui, em 2013, com o país já visto como maior representante dessa globalização, em Um Toque de Pecado, para além dos questionamentos estarem novamente presentes de forma contundente, e espalhando o trabalho por diversas histórias e por quatro províncias do país, o diretor redireciona o seu modo de evidenciar o estranhamento fazendo não com que prédios decolem, por exemplo, mas intrometendo seus personagens em reações às situações que os determinam como cópias do pior modo de reação ocidental: o que refere aos justiçamentos com as próprias mãos e muito sangue restando como não respostas.

Se Jia quase inicia o filme com uma imagem cristã sendo carregada em frente de uma estátua de Mao Tse Tung; se ele quase inicia com um confronto violento (onde machadinhas podem sucumbir diante de um revólver); se coloca num primeiro plano reclamações de alguém com jeito de ser “das antigas”, questionando seres políticos corrompidos; se inventa um sujeito que percebe como o melhor de subsistir arrancar dinheiro e vida de quem tem mais; se determina que a mulher nesses novos instantes pode estar sendo alvo muito maior de exploração e ganas masculinas; se, se, se, e percebendo que sua terra não é mais a ideal e belamente culta China dos mitos, e que ela tem de sucumbir até no idioma – quanto mais, na honra -, para ser um gigante curvado (que passa a necessitar de outros curvados), nada mais aceitável que viesse a “aumentar” os tons das cobranças.

E criou seres/personagens que não aguentaram o tranco e saem reagindo aos equívocos – que devem soar muito mais forte nesse país de cultura tão antiga, e num país que pregou por mais de 70 anos a igualdade social total como o modo de sustentação de, e por, um regime político. É estranho notar que muito dessas reações acabarão roubando um bocando de nossas sensações – passando pelo estômago que poderá revirar –, mas as questões de importância jamais serão mascaradas: e vale lembrar que lá no início, o diretor agia de forma radical na forma de seus trabalhos, o que faz com que a violência deste daqui não pareça tão peça atípica assim. Sobram pessoas machucadas de todas as maneiras, o que indica o grau de “catástrofe” em que deve estar metido o país, lá no seu âmago, lá nos seus interiores, lá com as cobranças e fingimento de potência maior. Ao menos os bichos se dão bem, ou se não, são os que merecem piedade, sobrevivem: talvez uma maneira de referir ao país de extensa tendência ancestral campesina – onde eles, os bichos, sempre serviram como parte do sustento (ou trabalhando, ou cedendo leite, ou a própria vida, mas de modo correto e como parte da cadeia alimentar); talvez como um jeito budista de encará-los, como seres que respiram o mesmo ar, ou como os que podem ser receptáculos de outras encarnações; ou ainda como os que simplesmente merecem a piedade, de uma espécie que deriva dos atos comuns de sobrevivência, para aceitar-se como passível de corromper e ser corrompida, de escravizar, de lucrar sem apiedação ou atenção aos que são da mesma espécie.

A maneira mais evidente que o diretor imaginou para criar uma liga visível entre as situações – que não a da textura superficial do sangue, ou da indignação, ou ainda da tristeza latente – se dá através de ação basicamente técnica, no modo como maneja suas lentes. Desde o início, as imagens são obtidas por captações que criam sensação de que se está flanando pelos/entre momentos, com movimento que passa a impressão de continuidade constante, onde as tomadas e situações são costuradas por imagens buscadas por leves giros, suaves e curtos travellings de ida e volta, muita atenção nas faces e expressões, fazendo dos personagens, também (por suas ações dentro das cenas) elementos de complementação das ações das câmeras. A sensação de fluidez se mantém de modo constante e facilitador para a imersão no filme: mesmo em instantes de forte impacto – e há muitos, muitos tiros, muito sangue que jorra, um momento espantosamente forte no último episódio longo (que não citei acima, pois mais especial, mais direto, muito triste: o do rapaz que troca de emprego diversas vezes) -, mesmo quando as lentes vão à beleza estonteante e singela da jovem e ao ato lúdico dos peixes voltando à vida, à água. Novamente estamos diante da evidência de que a arte ainda suporta muitas novidades, ainda tem espaço para surpreender: e, novamente, Jia Zhang-Ke se faz um desses que podem.


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