Corpo Presente:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcelo Toledo, Paulo Gregori
Elenco: Simone Iliescu Marat Descartes, Raissa Gregori, David Cardoso.
Duração: 75 min.
Estréia: 11/10/2013
Ano: 2012


Compilações e homenagens


Autor: Cid Nader

Homenagem à “Boca do Lixo”. Simploriamente poder-se-ia reduzir todo o elaborado de Corpo Presente a uma grade homenagem feita ao mais profícuo e identificador dos modelos de cinema nascidos na cidade de São Paulo. Estão lá as citações diretas a atores do momento: participam do filme Darlene Glória, David Cardoso, Selma Egrey, Neide Ribeiro; estão lá trabalhando com mais afinco, na frente das lentes também, o diretor e roteirista Alfedo Sternheim, e por trás delas o maior fotógrafo daquele instante, o saudoso Aloysio Raulino, que morreu nesse ano atual de 2013 (aliás, como que de maneira redundante criando uma fotografia espetacular para o filme); mais figuras paulistanas absolutamente ligadas ao momento e ao que se faz hoje, e que trabalham hoje em dia sempre tendo em mente aquele instante, aquelas situações que traçaram por São Paulo a raridade tupiniquim do cinema que se “finge” cru (desde gente do roteiro, a outros que participam afetivamente de fugazes instantes).

Quando se nota, de repente, vemos que - mesmo mantendo a “Boca” como uma possível unificadora de anseios que levaram muitas das pessoas envolvidas com o filme a gostarem dessa arte - o trabalho remete a reconhecimentos ainda mais diversos da cidade de São Paulo e das relações dessas pessoas para com ela, como uma outra boa fonte de se poder entendê-lo ou simplesmente captá-la: trafega por lugares iconográficos da metrópole (principalmente pelas galerias da rua 24 de maio); por regiões de periferia marcante pela aridez (como o caso da zona norte em direção do centro, ou o enorme cemitério da Vila Alpina); a lateral do cemitério da Consolação em direção à curva mirabolante que Alberto (agente funerário interpretado magistralmente por Marat Descartes) faz no sentido da rua Augusta (Boca e rua Augusta...); a boate iluminada e fake (novamente na rua Augusta); o típico salão de cabeleireiro; ou o céu cinzento e ameaçador (e os trovões), sempre jorrando numa urbe que se marca por isso, pelos mais diversos motivos.

Pensar nele como uma conclusão de um trabalho quase laboratorial de Paulo Gregori e Marcelo Toledo executado por anos na confecção de curtas-metragens que um dia desembocariam num longa (que parecia peça de Frankstein, já que era história corrente, aguardada por se insinuar via conversas como algo resultante de compilações), também significa classificá-lo com acerto: nas intermediárias do trabalho concluído notam-se trechos desses curtas fazendo parte da história, montados de forma tão generosa e carinhosa que não se faz possível reconhecê-los por impacto divisor ou diferença na narrativa (nem por disparidades de iluminação ou granulação), a não ser por quem já os conhecia de outras histórias. A homenagem (torta que seja) à cidade e ao seu maior movimento de cinema (como não lembrar de Jairo Ferreira), na realidade, retrata gostos e opções de vida muito particulares dos diretores, acima de tudo. Trabalho que também homenageia uma amplidão particular deles por cinemas de outras partes – que se notem os cartazes de filmes, ou a sala decadente, ou que se fique com a marca genial da dança final, muito cópia da obra de Fassbinder.

Ao optarem por montá-lo quase que como aglomeração de esquetes (já que os personagens não são singulares em suas “duplas vidas”) criaram a sensação rara de que se passeia por setores de referências, que são estanques, pelas origens e pelos momentos em que nasceram, e impediram que se fixasse a mais a atenção no que se reverenciava, e ao que se referenciava. A fluidez e facilidade de acompanhamento tem boa parte dessa sorte por tal razão. Não se fala de vidas fáceis aqui, mas se soube como falar para que o peso dos dramas não ficasse como marca maior do que a execução de cinema que eles concretizaram.

P.S.: por tempos, em meio ao burburinho (ou grudadinho logo após) impactante do movimento do Cinema Novo (que, cópia da irreverência e desglamourização que partiram de Europa, conseguiu se estabelecer como a grande primeira marca de unificação de um cinema tipicamente tupiniquim), o que se fez em São Paulo recebeu razoável quantidade de narizes torcidos ou pechas de que havia aqui algo que era só era daqui mesmo, não de reconhecimento nacional . Havia a acusação de que o cinema paulista moderno - o do udigrudi/marginal, paralelizado e sucedido pelo momento da Boca -, no início desse preconceito, bebia de fontes exteriores, buscando se estabelecer como algo que conduzia o pensamento paulistano ao de fixar-se como algo de compreensão primordialmente cosmopolita – o que não deixa de ser “uma” verdade, até por conta da conformação civilizatória da cidade. Tanto quanto não daria para ser inocente ao extremo e acreditar que o Cinema Novo era fruto basicamente de construção em todas as suas instâncias (e isso desmistifica-se facilmente quando se nota o que ocorria similarmente em estética e forma fora daqui – tanto quanto das nossas diferenças, na imposição, nos trabalhos, de nosso fabular ou real de nuances e cores próprias), o tempo se incumbiu de colocar nossas produções (as paulistas) em pautas de reavaliação e redescobrimento, notando-as da mesma maneira antropofágica de assimilação e retransformação. Destacar o cinema da Boca – num primeiro instante mais chão, e mais isolamento diante das “discussões pertinentes” - para tal releitura exercida aqui em Corpo Presente (ao menos como um de seus quinhões de elaboração), por si só já empresta ao filme importância e ar de coisa imprescindível: mas é mais, ainda.


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