ANTICRISTO:


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Original: Antichrist
País: Din/Ale/Sue/Ita
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Duração: 109 min.
Estréia: 28/08/2009
Ano: 2009


O caos reina, a natureza não  é acolhedora. 

Autor: Cesar Zamberlan

Lars Von Trier é um dos poucos cineastas que ainda consegue gerar polêmica e acaloradas discussões em torno do seu cinema. Algo notável no marasmo cultural em que vivemos. Seus detratores o acusam de manipulador, arrogante, falso, irônico etc. Não foi e não será diferente com “Anticristo”. Amigos que viram o filme na primeira cabine para a imprensa já haviam despejado, via twitter, uma série de adjetivos destruindo o filme. Vi “Anticristo” numa segunda cabine e gostei muito, até mesmo nos momentos em que não compartilho tanto do caminho narrativo que o cineasta segue ou das opções estéticas que adota. 

  Mas como olhar um filme como esse sob o ponto de vista crítico? Analisá-lo tendo em vista o que narra: o seu conteúdo? Analisá-lo tendo em vista como narra: sua forma, seus elementos fílmicos? Analisá-los tendo em vista a obra anterior do diretor? Analisá-lo tendo em vista uma suposta relevância do filme? Fato que abomino – tal qual o colega Marcelo Miranda que levantou a questão numa discussão num outro espaço -, afinal qual medida para o que é relevante ou não. Como ver esse filme? Como olhar para ele?

  No caso de Von Trier e deste filme, vou destacar a figura do autor e o que ele problematiza.

  Hoje parece existir certo constrangimento por parte de muitos artistas em assumir uma posição ideológica. Isso não acontece com ele. Von Trier defende um ponto de vista, uma teoria que explicita até mesmo dentro dos mecanismos narrativos do filme ao articular o discurso que lhe interessa. Muitos o criticam por isso, mas a acusação de manipulação, termo usado e que questiono, deixa de ter força se notarmos que os mecanismos estão escancarados pelo diretor. No caso de Von Trier, um desses mecanismos é a forma como estrutura o ponto de vista narrativo dos seus filmes. Como acontece com muitos outros cineastas e escritores, é fundamental percebê-la para compreender e estabelecer um diálogo com o objeto retratado. E é nesse ponto que o cineasta celebra uma espécie de contrato de leitura do filme que, se aceito ok, você está no filme; caso contrário, não. (Isso nem chega a ser uma novidade em relação a qualquer obra de arte.)

  Em “Anticristo”, diferentemente dos seus filmes anteriores, não temos um narrador onisciente com uma voz impostada dando as coordenadas do jogo. Fato que para alguns, que não assinaram o contrato, soa arrogante em “Dogville” ou “Manderlay”. Mas o filme, igual aos anteriores, começa com um letreiro que nos coloca frente a uma narrativa estruturada em partes bem definidas. Capítulos com cisões claras. E, se não temos a voz do narrador; temos, já no prólogo do filme, a força sonora de Handel sobrepondo-se imagens do casal transando em câmera lenta que são tão afetadas ou pouco naturais que implicam no reconhecimento de uma voz narrativa nada neutra ou realista - tal qual o narrador em primeira pessoa, colocando o espectador frente a uma fabulação na qual a marca do autor e do seu discurso está inteiramente apresentada.

  No capítulo seguinte, do luto do casal com a perda do filho, Von Trier muda o registro e passa a articular o discurso de maneira mais realista e constrói a encenação partir de outro ponto de vista, promovendo uma relação não de afastamento, mas de empatia do público com a dor do casal. Isso se dá em toda seqüência do hospital quando a personagem ainda está sob cuidados médicos. Mas quando ela volta para casa e o marido terapeuta passa a tratá-la pessoalmente, livrando-se da interferência do médico - que nunca aparece e é sempre citado – passa então a existir uma relação de dominação: o marido, que acredita possuir a razão, passa a conduzir a esposa fragilizada rumo à “salvação”. Von Trier dá a ele as regras do jogo, do filme, e o filme passa a ser levado pela idéia de que a razão pode curar. Temos aí então um interessante embate entre a razão humana e aquilo que a razão humana julga conhecer mas desconhece, a anti-natureza - para usar o termo do filósofo Clement Rosset - e para além dela, a associação à natureza má da mulher, a bruxaria tão conhecida na Idade Média.

  O marido com o instrumento da razão cria então uma espécie de jogo no qual define o cenário, as provas, regras e todos os processos. Pensa estar no comando. Dominar a natureza. (Poderíamos até associá-lo aqui à postura de um diretor que cria um filme, uma obra e se vê num certo momento da vida numa crise existencial terrível, numa depressão profunda, dando conta de estar à frente de um abismo criativo e lidando com coisas que jamais passou a existir. Mas seria arriscado fazer isso e misturar biografia e obra.)

  A natureza passa a ser então um terceiro personagem. (Lembrando que o filme não apresenta outros personagens além do homem e da mulher e da criança - no enterro e no final do filme temos apenas figurações.) Mas não a natureza paradisíaca. O paraíso de Adão e Eva. Adão e Eva foram sepultados pela morte da criança, alusão possível ao pecado original bíblico. No prólogo, ao opor em montagem paralela amor e morte, Trier confronta o sexo, o desejo erótico por excelência mais animal que racional, com a morte da criança, momento mais trágico e nem por isso menos natural se pensarmos na morte como algo possível e em certo momento da vida inexorável. E se o sexo é da natureza humana, a morte também o é. Mas, Trier vai romper com a lógica cristã ao desdivinizar essa natureza, e não só pela morte da criança – não é natural o filho morrer antes dos pais -, mas negando o seu caráter acolhedor, seja ela um estado de coisas criado pelo Criador, seja ela representação física: animais, vegetação, fenômenos naturais etc. O cineasta chega a dizer pela boca da raposa que reina o caos, ou seja, a suposta ordem divina cai por terra e o jogo se inverte: a natureza passa a ser então temida, assustadora por revelar uma outra verdade sobre as coisas, por revelar se de uma outra forma, por ser, voltando a Rosset, uma anti-natureza.

  Frente a esta anti-natureza, o marido racional sucumbe e a mulher que há pouco se dizia curada se revela também outra, sua outra natureza, invertendo as regras do jogo e revertendo os papéis. Essa reviravolta vai ocorrer a partir da castração do homem, pois isso lhe garante o papel de dominação, e depois, num ato maior de desespero e também de castração com a esposa se mutilando.

  Trier, nesse momento, talvez até com certo exagero, volta a embaralhar as coordenadas do filme e acrescenta mais um elemento a já complexa situação que instaurará. Trazendo à tona a questão do feminícidio e a caça às mulheres tidas como bruxas. Tema da dissertação de mestrado da personagem que ela acaba interiorizando à sua natureza. Longe da misoginia – Trier deve ser acusado de misógino também – o que ele apresenta é o encontro do homem racional com uma natureza bem diferente daquela que ele imaginou e que supostamente jamais esperava encontrar. Dando a essas questões um tratamento de filme de terror.

  Pode até se dizer que todas essas questões não se resolvam ou se encaixem perfeitamente, mas essa busca é de novo fundada numa idéia soberba guiada pela racionalidade que a tudo clareia, seja ela para tratar da forma ou do conteúdo do filme. Mais que uma desculpa ou justificativa para tudo, essa não razão, desrazão ou anti-razão do filme ilustra o desespero, o terror frente a uma natureza que pode não ser tão acolhedora, afinal, como diz a raposa, reina o caos. E nesse caos de intenções, de imagens e de formas, Trier mergulha bem.  

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